Crônica da Semana, por Marco Vasques

LEMBRANÇA 

Por Marco Vasques 

Publicado no jornal Notícias do Dia [06/01/2014]

            Marca o sol com a sola das suas surradas lembranças. As dunas foram a vida no seu olhar. Dorme, notívago na imagem surda, cinza de poucas horas. Compartilhou setenta anos de vazios. Vive o silêncio da partida. Ao lado da cama, pensa. O fogão a lenha, ainda em chamas, amarela o bolo de fubá, enrolado em folhas de bananeira. Chora e se espalha nos campos de lágrimas. É uma pedra na eternidade, o choro. Uma chácara plantada no abandono. Morreu. Luz de nada no corpo morto. Espantalho de assombros. O esquecimento, vive na sala. Amaram-se no silêncio, sem som. Sem sussurro os corpos se iluminavam. Mesmo na ausência diária para o trabalho, era no silêncio dos cantos da casa que ela o procurava. Quanto ainda era possível o amor.        

                Um gosto de jasmim se espraia do canteiro da janela. A cristaleira ainda reserva a ausência dos lábios. Por que nossas vidas ficam trancadas em prateleiras, pratarias, porcelanas e nunca se encontram? Não acredita. Abandonou-o por muitos anos. E agora? O corpo inerte na madeira. Um silêncio na sala para o olhar. Um homem sem homem, sem nada. Um rijo corpo no ar, servido de rezas falsas e sem a bebida preferida. Pensa. Pune-se por ter rejeitado a carne sempre embriagada. Não quis a solidão sombria.

Não suportava. Todo dia a mesma vida. Pescaria. Café da manhã com peixe, farinha e a cachaça toda no corpo. E por que bebia tanto? O que o fazia não querer outra rotina? Por que não a mesma vida? Não beber. Voltar para casa. Um sexo amortizante. Acordar. Não beber novamente. Mais um dia. Repetição da repetição. A bebida, um sonho. Jogou a vida inteira sem cartas. Não. Não mesmo, dizia. Dormir com um bêbado todos os dias a molestava. Nasceu para a sobriedade. Inerte a penetrá-la, com muita rudeza, inteiro de cachaça. Tudo sem inteireza. Queria uma noite de amor de juventude, sem a aspereza do álcool. Só dois corpos sem carcaça. Um nó impossível, os dois na noite de casamento. Sem nada, só o nada. Osso sem perfume, uma dor, só.

Escolheu outra rota. Beber, pescar e cultivar o desespero. Ela sabia, ainda que não quisesse admitir, que a vida dele era um arroubo na própria vida. Tinha a existência dentro dos dias. A cristaleira limpa e carregada de louças denuncia a ausência. Sem luz nos olhos, ao lado de todos, morto, refletido no cristal. Logo ele que preferiu as xícaras borradas de fogo. Tantos mortos na vida. Tanto respirar no rosto tumular. Para que serve tanta limpeza! Suja as mãos na brasa. Queima. Na pequeneza, em campos de serpentes, sua mãe sempre dizia que antes de se matar o porco é preciso alcançar o grito, sem desespero.

 

 

 

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