Breve Utopia – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 08/01/2014

Breve utopia

Adaptar-se. Reler-se a cada dia para, a cada dia, sermos outro. Ser mais, melhor. Ou, por outro caminho, ser menos. Ser diminuto nos acúmulos das coisas que não se pode carregar, afinal uma pessoa tem apenas aquilo que ela pode carregar. Por isso, é preciso adaptar-se, é preciso, talvez, acumular-se apenas por dentro de algum saber, algum amar, um ou outro defeito. É preciso preencher-se por dentro. Também é necessário cheguevariar-se naquela frase que nunca foi do revolucionário: há que endurecer, sem perder a ternura jamais. Estamos num tempo agudo (mas quando o tempo não foi agudo?), assim, para enfrentá-lo seria necessário que nos tornássemos aguados, líquida ternura por dentro de cada gesto, por sobre cada olhar, sob cada fala. Talvez assim, mais calmos, mais rios cheios e lentos possamos desaguar um novo século de mudanças. Afinal, como diria a sábia Hilda Hilst “os sentimentos vastos não tem nome”, por isso, melhor do que ficar nomeando as pequenezas, poderíamos assumir a vasteza dos sentimentos inomináveis, poderíamos entregar-nos ao mundo em gestos mais circundantes, assim como o abraço. Não é fácil, a vida não se materializa nos ideais éticos e poéticos de transformação e mundo melhor. Alguns dizem que a vida é tensa, sobejada na violência natural dos homens. Seríamos apenas uma barbárie contida? Seríamos apenas um cordão esticado pronto a romper-se? Estamos fadados sempre a permanecer nesse embate entre a crueza das misérias diárias e a profundidade das solidariedades também diárias? George Bataille dizia que nos colocamos de pé para tentar alcançar o céu, para tentar sairmos de nossa condição de mortal, no entanto, se nossa cabeça busca alturas, nossos pés ainda chafurdam na terra, ainda conhecem a lama. Por mais que tentemos separar, nosso corpo está imiscuído tanto nos altos quanto nos baixos. Somos a mistura e com ela temos que conviver diariamente. Por isso, adaptar-se, reler-se, refazer-se para que possamos, de alguma forma, estabelecer uma vida mais tocante e tocada por algo perene, mesmo que tênue, mesmo que difícil de ser conseguido. Uma convivência que nos estabeleça no mundo e que ultrapasse as religiões, as violências, os desvarios a que somos submetidos. Uma convivência libertadora.

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