Crônica da Semana, por Marco Vasques

 O RETRATO DE DOLORES

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [13/01/2014]

A Bíblia está aberta sobre o criado-mudo. Dolores não levanta sem ler um trecho para começar o dia. No quarto ao lado, seu pai tosse. É possível ouvir a respiração dele em qualquer cômodo. O corpo pesado se arrasta pela casa. A ânsia por oxigênio produz, naqueles corredores sem luz, uma textura espessa e densa. A imagem do homem selvagem que tomava para si todos os afazeres da família, do homem que criou, com a força de seus braços no arado, mais de quinze filhos, foi substituída pelo fogo negro estampando em seus olhos cansados de enxergar.

Dolores já tentou de tudo. Já pediu auxílio aos irmãos que migraram para a cidade. Tentou negociar uma internação. Solicitou ajuda ao padre do bairro.  Vai ao posto de saúde todo o final de tarde à procura de conselhos e de algum remédio que possa diminuir o desespero daquele homem. Já estampou sua desgraça no telejornal local. Foi entrevistada, em rede estadual, por radialista especializado em hecatombes. Enfim, tem feito de tudo para não acatar a decisão que os irmãos enviaram por carta na semana passada. Ela não admitia, em hipótese alguma, que após ter criado quinze filhos e ter dedicado toda a sua vida à família, seu pai fosse parar num sanatório.

 Dolores lê mais um parágrafo do Livro de Jó, igualmente massacrado e abandonado por todos. Quando adolescente, ouvia com atenção os sermões dominicais. A figura desse homem jogado à indignidade total sempre lhe pareceu estranha. Para ser honesta — pensa — nunca entendeu o motivo do uso de tanto egoísmo e de tanta demonstração de poder. Perguntava-se por que o onipresente e todo poderoso usava de tanto esnobismo e perversidade, quando já obtinha, previamente, a certeza da fé daquele homem? Dolores hesita nesta indagação; não quer continuar. Precisa permanecer acreditando, pois as circunstâncias exigem que ela demonstre força.

Levanta e se dirige à cozinha para fazer o café da manhã. Procura alguma fruta. Faz o mingau que será servido a colheradas ao seu genitor. Tem notado que nos últimos dias ele tem se negado a tudo e une suas forças para caminhar de um quarto a outro à procura de algo. Já notou que os álbuns de fotografia vivem remexidos e fora dos lugares. Encontra, às vezes, fotos espalhadas por todos os cantos da casa. Ela não o adverte mais. Permite que vasculhe e procure o que quiser. Baús, cartas, fotografias, enfim, impossível saber o que procura, pois faz seis anos que ficou sem fala e sem memória. Ao entrar no quarto, encontra seu pai hirto, ajoelhado ao chão, os cotovelos sobre a cama, nas mãos um retrato de infância, o retrato de Dolores.

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