O Remorso – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia, em 15/01/2014

O que seria um remorso? O que seria esse ácido que nos corrói por dentro quando percebemos que os erros, as faltas, as fraturas que cometemos atingem o nosso senso ético ou moral? Segundo o dicionário o remorso é “aflição, tormento de consciência, por um ato mau que se praticou. Revolta da consciência contra uma ação pecaminosa ou culpável; remordimento;” Fico com essa última palavra: remordimento, remorder-se. Morder-se continuadamente pela culpa, por algo cometido e que não pode ser mudado, alterado. Já não haverá mais inocência naquele que se debate no remorso. Algumas coisas nesse – se podemos chamá-los assim? – sentimento podem ser destacadas. Ele depende do passado, depende daquilo que não terá mais volta, ou seja, o remorso é memória. Se o arrependimento tem um verbo bastante comum, o verbo correspondente ao remorso é quase um desconhecido. Trata-se do “remorsear”, cuja definição é causar remorso a; afligir, torturar. Assim, quantas vezes ouvimos ou dissemos “eu me arrependo”, mas dificilmente deixamos escapar um “eu me remorseio”, talvez por que o remorso seja muito mais um objeto do que uma ação. Aqueles que são marcados pelo remorso é como se carregassem algo: o corpo pesa, dói, a respiração se contrai, é como se tudo se concentrasse nesse moer, remoer, remorder-se silencioso e tenso que o remorso nos causa. Há antídotos como o perdão, o esquecimento, o orgulho, mas nem sempre funcionam, porque o remorso é uma comiseração por si próprio, é ser partícipe da própria miséria. Olavo Bilac tem um verso em que estabelece o remorso como algo diurno: “Delira. Mas, depois do delírio sublime, o remorso, imortal, nasce com o arrebol.” É como se o remorso fosse um bicho da luz, que se vivifica durante o dia, justamente, porque traz a noite para dentro da pessoa. Não há muito o que fazer quando se é pego pelo remorso, talvez um dos antídotos, talvez a tentativa de se conviver com tal peso, talvez a morte. Espinoza disse que o remorso é a tristeza oposta ao contentamento e que o contentamento é alegria nascida da imagem de uma coisa passada de cujo resultado duvidamos. Por outro lado, no remorso não há dúvidas: a alma é remordida, mais do que pensou Bilac, dia e noite.

Rubens da Cunha

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