Crônica da Semana, por Marco Vasques

O ESTUPRO DE MADHYAMGRAM

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [20/01/2014]

Atearam fogo em suas vísceras. Atearam fogo em sua pele de menina na cidade de Madhyamgram. Na Índia, as mulheres estão sitiadas por um estado de violência e crueldade repugnantes. Estupros coletivos ocorrem com frequência. As legislações vigentes beneficiam o crime contra a mulher. E como os covardes nunca andam sozinhos, unem-se em bando para saquear as vidas que lhes deram vida. Ela foi estuprada por duas vezes consecutivas. Ao tentar denunciar seus algozes, toda incendiada por dentro; toda labareda de incertezas; toda queimada de sêmen intruso, veio o golpe letal. Os mesmos homens que a possuíram a fórceps, inquisidores anacrônicos, incendiaram sua carne. Não bastou incinerar a alma daquela menina, tiveram que carbonizar seu silêncio.

Aqui, crianças são queimadas no Maranhão. Meninos e meninas assassinados nos cantinhos indesejados de nossas cidades. Madhyamgram também fica na América, porque na geografia insana da perversidade não existe território imune. A notícia que chega da Índia não nos é estranha. Aproximadamente 13 mulheres são assassinadas por dia no Brasil. O estupro, para nossa vergonha, corre solto nos vestíbulos familiares. Sim, todas as pesquisas mostram que por aqui a violência sexual contra mulheres e crianças é praticada, em sua grande maioria, por pessoas próximas, ou seja, por pais, tios, primos, padrasto, e vizinhos. Não bastasse a dor de ter o corpo violado, ainda impera um regime perpétuo de silêncio. O violentador represa a vítima da fala, exige silêncio com um amontoado de ameaças físicas e psíquicas.

A menina de Madhyamgram morreu no dia primeiro de janeiro. O mundo em fogo de festa e ela, sem fresta de luz nos olhos, se despedia da dor. Ela teve que correr em chamas pela casa para iluminar nossas vergonhas. Não resistiu. Não, não temos o que festejar. E engana-se quem pensa que o abuso sexual é apenas fruto da falta de educação, da falta de informação ou de dinheiro. Artistas referenciados por multidões, com grande formação intelectual e muita riqueza, também praticam barbarismos. Empresários renomados, jogadores de futebol milionários, professores universitários e políticos, por exemplo, ajudam a avolumar as estatísticas das ruínas.

Não podemos prever onde, como e quando uma próxima mulher ou criança será violada. Talvez a única esperança seja arrancar a mordaça impetrada às vítimas e fazer com que a suposta vergonha a elas imputada seja imposta aos usurpadores de suas escolhas, de suas liberdades e de suas vidas. Precisamos acabar com cultura de envergonhar nossas vítimas e de fazer com que elas permaneçam em silêncio.

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