Faz tempo – crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 22/01/2014

Faz tempo ando em devaneios, em intermeios de sombra e alguma luz matinal. Há alguma geometria nesse meu caos diário, alguma ordem-e-progresso, não aquela que tremula na bandeira nacional e que soa, muitas vezes, como ofensa repressora. A minha ordem é outra, menos positiva, mais incisiva no corte, nos abruptos da alma. Faz tempo ando em veraneios, verão interrompido por águas, granizos, alguns deslizamentos de terra, mas nada que impeça o delírio de caminhar, de aportar em lugares outros a cada dia. Manuscrevo minha vida sobre folhas e folhas de tempos simples e bons. Há uns rasgos, amassos, rabiscos que também incrementam o delírio, que encobrem a brancura, de dão alguma mancha de dor e de prazer. Insisto em manter alguns dentros acontecidos, amanhecidos em mim como crianças rebeldes, daquelas que fazem birra nos supermercados. Daquelas que quebram os protocolos sociais com seus gritos extremados. Alguns breves escândalos são bons para a pele, bons para a beleza do manuscrito que sou. Faz tempo ando em amortizações. Os dedos, os verbos que me escapam, as fugas e falhas a que me submeto, homem que sou, são escolhas, ou escolhos que é palavra mais rara. São vestimentas do acaso, do sentir que vagueia e vasculha as inexatidões que me compõe. Faz tempo ando em tímida tristeza, outra face desse sentir plural, cuja inexperiência ainda é viva, ainda toca-me os vãos, os degraus que subi ou esqueci de subir. A timidez é uma dança, um gesto vermelho. Não aqueles vermelhos típicos da paixão, do tango, das tragédias. Outro vermelho, aquele das faces, aquele paradoxal vermelho pálido que marca os tímidos. Faz tempo ando em suspensões. Fios de arame que seguram o equilibrista. Ainda não decidi se sou o equilibrista ou o fio de arame. Talvez eu seja aquela vara que serve para equilibrar-se. Equilíbrio? Talvez um dia eu ande nele também. Talvez um dia eu possa olhar para o espelho e dizer: faz tempo que ando em equilíbrios. Hoje, ainda não. Ainda não me sai tanta sabedoria da boca. Hoje é preciso que eu me diga e me repita, mantra, ode oração: faz tempo ando em devaneios, em intermeios de sombra e alguma luz matinal. O que não deixa de ser um equilibrar-se na esperança.

Rubens da Cunha

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