Rotinidadades diárias – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 29/01/2014

7:37h da manhã. Ele se prepara para sair. Mais uma vez os mesmos gestos, os mesmos atos de rotina. Levanta-se, toma banho, se veste, faz um café, ouve alguma coisa no rádio. Depois, pela enésima vez, não sabe onde deixou a chave do carro. Encontra no bolso da calça. Está atrasado. Conta com a sorte de não pegar engarrafamentos. Erra. Pessoas mais azaradas do que ele bateram o carro. Aquele breve momento de azar de dois motoristas se espalha por centenas de pessoas que ficam ali presas. Olha pelo retrovisor, a fila imensa. Ao seu lado um ônibus lotado. Pelo acostamento, um ciclista avança. Talvez se comprasse uma bicicleta, mudasse de vida. No entanto, lembra-se das ciclovias de sua cidade, lembra-se que elas, geralmente, vão do nada a lugar nenhum. Não tem esse espírito de aventuras. Preso no engarrafamento, pensa em se mudar de cidade. Aqui não dá mais para viver. Sempre a mesma coisa, o trânsito, a rotina, esse arranca e freia, essa necessidade contínua de atenção.

8:20h. Ainda longe do trabalho. Avisa do acidente. Acha que é grave porque não era para demorar tanto. Pensa que poderia ser pior. Que há cidades em que 40 minutos de engarrafamento é sorte, é dia bom. Ri da sua síndrome de Poliana. Na verdade, nunca leu o livro. É apenas uma referência. Lembra mesmo é da sua mãe e aquele discurso do poderia ser pior sempre tão presente em tudo. Qualquer reclamação, qualquer encrenca em que se metesse, a mãe vinha e dizia: “meu filho, poderia ser pior”. Qual seria o limite da mãe? Que tipo de situação faria com que ela chegasse ao fim e dissesse: “não dá pra ser pior”. Distrai-se nesse pensamento. Quase bate no carro da frente. Assusta-se, olha o azar generalizado se solidificando nele! Pede a si mesmo para prestar mais atenção, segue firme até o fim do engarrafamento. Liga o rádio, escuta uma canção qualquer. O que não tem remédio, remediado está. Quase grita: “sai daqui, mãe!”

9:10h. Chega no trabalho. Mais um dia igual: problemas, soluções, problemas. Produzir a parte que lhe cabe na engrenagem.

18:00h volta para casa. O engarrafamento está normal. Continua pensando em mudar de cidade, de vida. Mas ir pra onde? Fazer o que de sua vida feliz e estável?

Rubens da Cunha

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