Crônica da Semana, por Marco Vasques

LIÇÃO DE ABANDONO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [03/02/2014]

Os dedos das mãos eram travados e esticados para dentro das palmas, o que sempre impossibilitou que alguma cigana lesse suas mãos. Nem ele conseguia ver as linhas que, supostamente, revelariam algo sobre sua vida. O queixo muito torto, com um osso enorme na vertical, dava um tom expressionista à sua face. As pernas imensamente diminutas e a cabeça enorme produziam impacto incomum nas crianças que se dirigiam à escola. Na sala escura de sua casa, sobre um sofá vermelho com as molas à mostra, Lacerda não passava de uma paisagem aterradora com o rosto enorme voltado à rua.

Ninguém olhava diretamente para ele. Nem os adultos. O aspecto denso e escuro da casa afirmava, ainda mais, aquela atmosfera de diferença. Em algumas famílias da vila, quando os pais desejavam atemorizar seus filhos por terem cometido algum pequeno delito de infância, usavam o nome dele como referência de terror. Como a prática se espalhou por quase todo o lugarejo, toda uma geração de crianças cresceu com medo daquele menino de olhos negros, cabelos brancos, face gigante e com o corpo colado nos pés.

Dia a dia ele se arrastava pela sala por minutos até chegar à janela. Ali ficava. Sua casa era localizada muito próxima da escola. A cultura do medo, a dominação pelo medo é, seguramente, uma das formas mais perversas e eficazes de controlar a força humana. Grandes civilizações foram erigidas e derrotadas sob a insígnia do medo. As religiões exercem a coerção pelo medo. O capitalismo sobrevive porque atemoriza as pessoas todos os dias com suas quedas de bolsas, com seus aumentos e diminuições de taxas, com índices de desemprego e com a roleta cambial; esta é a imagem concreta da ficção trazida em medo real.

Lacerda nunca soube o motivo pelo qual as crianças nunca usavam a calçada do lado esquerdo da rua. Não estranhava o fato de que seria mais lógico que todos passassem sob sua janela, já que o colégio fica ao lado de sua casa. Sua deficiência não era apenas física. Segundo os médicos, sua capacidade de raciocínio era nula; no entanto, seus olhos e suas expressões demonstravam o contrário. Éramos muitos e corríamos soltos pela rua. E os olhos de Lacerda sempre nos acompanhando. O silêncio branco dos seus olhos se movia à nossa procura. Não tínhamos coragem de encarar Lacerda. Fomos ensinados a ter medo daquela criatura emoldurada entre a escuridão de sua casa e a luz externa. Ele morreu sem nunca ter atravessado os limites escuros de sua casa. Ninguém soube como comia, bebia, dormia, tomava banho, enfim, morreu e ninguém soube sequer como e onde foi sepultado. Lacerda foi o nosso primeiro mestre em matéria de abandono.

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