A idade que temos – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 05/02/2014

A idade que temos

Eu já estou pronta pra viver a minha idade” – Olivia Hime

Idade: identidade numérica que carregamos sempre. Somos ou estamos a idade que temos? Nos fazemos ano a ano. Mas esta idade é apenas a física. A idade do corpo, a marcação do tempo passando, ou da morte se aproximando, ou da velhice chegando. A idade física é um gerúndio. No entanto, há a outra idade, que alguns chamam alma, outros, espírito. Outros ainda dizem joie de vivre. Pode ser instinto, sobrevivência. De qualquer forma vamos nos rotulando sempre: tenra idade, terceira idade, melhor idade, meia idade. Não sabemos muito o que cada estágio desse significa, ou se eles são pautados pela idade física ou pela idade que carregamos dentro, aquela que achamos que temos e que nos define enquanto escolhas perante a vida. Carlos Drummond de Andrade poetizou esse embate. No poema “Idade Madura” ele fala do ser velho e do ter em si todas as idades: “(…) Dentro de mim, bem no fundo, há reservas colossais de tempo, futuro, pós-futuro, pretérito, há domingos, regatas, procissões, há mitos proletários, condutos subterrâneos, janelas em febre, massas da água salgada, meditação e sarcasmo.” Por outro lado o poeta português Herberto Helder diz: “a minha idade é assim – verde, sentada. Tocando para baixo as raízes da eternidade. Um grande número de meses sem muitas saídas, soando estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas. A minha idade espera, enquanto abre os seus candeeiros. Idade de uma voracidade masculina. Cega. Parada.” A idade nos força, nos forma externamente e internamente. A idade senta-se, assenta-se e acentua-se nas rugas, nos olhos, no falar. A idade que temos é sempre tão antiga, assim como a própria palavra cuja origem é duvidosa, talvez venha do latim aetas, atis. Talvez venha lá detrás esse idealizar a idade, palavra sem verbo, sem ação. A idade age sobre nosso corpo, mas nós não temos como flexioná-la. É sempre um substantivo capaz de conter as “reservas colossais do tempo”, como quer Drummond, ou capaz de tocar para baixo “as raízes da eternidade”, como assevera Helder. Seja qual for a idade substantiva que tenhamos, é preciso estarmos prontos para vivê-la.

Rubens da Cunha

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