Crônica da Semana, por Marco Vasques

TÁ COM PENA, LEVA PRA CASA?

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [10/02/2014]

A narração mais conhecida e incrustada no imaginário popular é a dos irmãos João e Maria. Apesar de todo o amor — pasmem —, o pai lenhador consentiu com o plano da madrasta malvada de abandoná-los na floresta. Tudo por conta de uma suposta dificuldade financeira. O abandono, na narrativa, é justificado pelas dificuldades materiais. O que ocorre na história contada e recontada no mundo inteiro não é muito diferente da nossa realidade social. João e Maria encaram a bruxa má e cega. Passam fome. Encontram muito dinheiro. Roubam o tesouro da malvada. Voltam para casa e são recebidos de braços e de bolsos abertos.

Só que na vida de concreto das cidades tudo acontece em fragmentos. Tem quem encontra algum dinheiro e não volta para casa. Há quem encara a bruxa má e é devorado. Existe quem volta ao lar de bolso vazio e é devolvido às ruas, como se fosse um casco reciclável de refrigerante. Tem quem se abandona por completo e vende o corpo ou entorpece a lucidez para buscar algum brilho no negrume diário. Existem os que roubam, assaltam e matam. Ou seja, o final na vida esticada por asfaltos quase sempre é trágico.

É preciso dizer que muitas crianças são abandonadas por mães desesperadas que devolvem ao mundo o abandono que receberam. E não são poucas as mães enlouquecidas. Muitas crianças se submetem ao trabalho para ajudar seus pais, porque pressentem a necessidade. A coisa acontece por desconhecimento da legislação, por necessidade, por hábito cultural e, sobretudo, por falta de uma política pública para a infância e para a juventude.

O trabalho e a exploração infantil acontecem por inúmeros motivos e vêm revelando requintes de crueldade. Esta semana, as emissoras de televisão brasileiras estão exibindo uma propaganda — com jogadores milionários — para alertar o mundo sobre a exploração sexual infantil. É deplorável como admitimos ao planeta nossa incapacidade de cuidar de nossas crianças. É vergonhoso escancarar nossas feridas em rede mundial, sem a menor vergonha.

Gastamos bilhões para sediar um evento de um mês, trilhões em propagandas; no entanto, não conseguimos uns míseros milhões para sanar nossa educação e nossa saúde pública, que são tão precárias. Não conseguimos recursos para construir uma política pública séria àqueles que serão o país em alguns anos. Parece estranha a frase? Pois, sim, as pessoas são quem constituem o país. O que fazemos delas agora, refletirá no futuro. Enquanto isso, existe uma elite econômica ignara, que nos diz despudoradamente: “tá com pena, leva pra casa”, como se ela não tivesse nada que ver com nada.

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: