O poeta e as palavras – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 12/02/2014

Mais uma vez as palavras se amontoam nos cantos, nos vãos, nos breves espaços vazios do poeta e lá ficam, à espera de que sejam descobertas, abertas, trazidas à luz. Algumas vem, algumas se tornam imprescindíveis, inestimáveis, outras jamais aparecem, são detestadas, causam alguma vergonha. As palavras são vergalhões na carne do poeta, ou seriam espetos, como aqueles que se enfiam nas picanhas, alcatras e costelas nos churrascos de domingo. Palavras resistem ao fogo enquanto a carne do poeta aça, fica apetitosa e é devorada com maionese e salada. As palavras são um paradoxo: almejam a eternidade na tênue carne do poeta. Pensam que se passarem por essa carne conseguirão ser melhores, conseguirão sair do seu estado de dicionário e planar livres e abertas. Iludidas são as palavras, não sabem da lenta putrefação no corpo do poeta, não sabem que a morte é um incômodo, que o poeta engana e engana-se diariamente achando-se capaz de compor, melhor, de comportar em si as palavras. O poeta é uma pseudo-compota de palavras. Mais do que carne de churrasco, o poeta se acha um faquir, espetado por milhares de palavras ao mesmo tempo. O poeta também é um iludido, um triste que não consegue se desfragmentar, não consegue ir além do que os dez versos diários, além do jogo inútil com as palavras. No fundo, naquele acantoamento de ilusões, o poeta e as palavras se estabelecem num diálogo, ora produtivo, ora cheio de preguiça e metáforas bonitas mas porosas demais. Como aquelas camisas dos antigos lampiões a gás, ou aquelas flores chamadas dente de leão, mas que com o toque, desmancham-se, desfazem-se. Assim são as palavras no poeta e o poeta nas palavras. Uma constante insegurança, um constante medo de ser soprado, destruído, desmanchado. Por isso, alguns optam pelo absurdo, pelo rame rame das metáforas, da linguagem empolada, dos arroubos linguísticos, para parecerem importantes, bonitos, inteligentes. Alguns poetas gostam da casca, do jogo das aparências, outros são mais para dentro, mas todos adejam as palavras como se elas fossem santas salvadoras. Claro, todos sabem que não há santidade, salvação ou inocência nessa relação. Enfim, os poetas e as palavras se merecem.

Rubens da Cunha

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