Crônica da Semana, por Marco Vasques

RODOVIÁRIA OU AEROPORTO?

Por Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [17/02/2014]

Sérgio Buarque de Hollanda e Paulo Prado já escreveram muito sobre a nossa cordialidade. Parece que ela acabou e é hora de ladrilhar. Nada justifica a morte do cinegrafista Santiago Andrade. Ninguém, ninguém mesmo ― nem a polícia, que anda ameaçando quem faz humor inteligente ―, tem o direito de matar. Antes que um e outro apressado, geralmente pertencente a uma elite econômica (o termo burguesia perdeu todo o sentido histórico), se levante e nos acuse de defensor da barbárie, já vamos avisando que será inútil. Não. Nós não estamos falando na barbárie, neste sentido mesquinho que parte da grande imprensa quer que acreditemos. Não podemos ser nem contrários nem favoráveis a um Estado hipotético.

Antes da morte do cinegrafista, os assuntos do momento eram: 1) a professora que fotografou alguém vestido de uma maneira que assustou os neurônios estéticos da docente. (O discurso dela reforça muito como somos, pensamos e estamos constituídos socialmente. Ocorre que o patinho feio do aeroporto se tornou um grande advogado e parece que a brincadeira vai se arrastar para a Justiça); 2) Um grupo de pessoas que se reúnem para fazer justiça com as próprias mãos, ainda que essa suposta justiça seja feita com a prática de muitos crimes. (É o paradoxo do jumento, porque eles combatem o crime com crimes tão perversos quanto os que eles mesmos condenam); 3) a ameaça de morte ao humorista Fábio Porchat, feita por policiais que se sentem indignados porque alguém colocou um espelho em suas faces.

Resultado: temos uma imprensa que se aproveita de um assassinato para fazer disso questão nacional e invalidar as manifestações e suas causas legítimas. Pergunta: E as pessoas que morrem (isso não seria a verdadeira barbárie?) todos os dias nas imensas filas do SUS? Ah, esquecemos: lugar de pobre é na fila do SUS, na rodoviária, na escola pública desqualificada, na favela; enfim, por que a morte dessas pessoas não vira questão nacional? Precisamos de pobre. Ele se submete à exploração e à servilidade.

Se pensarmos que a barbárie é termos uma polícia que comente abusos, fuzila pessoas algemadas e toda espécie de suspeito, sempre na favela ou nas periferias; que é termos uma concentração de renda absurda; um índice de corrupção no setor público e privado gigantesco; um dos piores sistemas de saúde pública; um arremedo de democracia; um sistema político arcaico e petrificado e um sistema educacional excludente e precário… Talvez, quando elegermos esses pontos e qualificarmos isso como bárbaro, encontremos explicações de causa, não de consequência.

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