Crônica da Semana, por Marco Vasques

O PARADOXO DO JUMENTO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [24/02/2014]

Aqui estamos amarrando pessoas nos postes, espancando mulheres, aliciando crianças, fazendo turismo sexual em rede nacional. Sempre tem uma mulata nua saltitando perto do Carnaval. E todo mundo jura que o que está na cena, o que importa é o samba nos pés, mas então para que a nudez mesmo? No restante do ano colocamos as mulheres peladas, ou quase, em tudo o que é propaganda. Tinta para cabelo, sapatos, toalhas, motos, carros, calça e roupas. Sim, pasmem, até em propaganda de roupas as mulheres são mostradas sem vestimenta alguma. Aqui nossas mulheres são subproduto, coisa.

Aqui não faltam gigantes da ética. Adoram chamar todo mundo de ladrão e de burro, mas têm um pé de laranja humana imensa plantada dentro de casa. Na verdade parece até que eles têm razão, porque agem e tratam todos da cidade como se fossemos asininos. Recente edital de cultura de Bundópolis é a prova disso. Tem dona de casa e irmã de artista ganhando edital. Tem mulher de artista ganhando edital. Tem filho de artista ganhando edital. Em Bundópolis é assim: qualquer um vira produtor cultural ou artista, mesmo sem formação alguma. Está valendo tudo. E se alguém critica, se alguém escreve ou fala, tentam desqualificar qualquer voz. São críticos de todos, mas detestam uma crítica, mínima que seja, aos seus atos.

Aqui qualquer um vira presidente e presidenta de alguma coisa e o paradoxo do jumento é a febre do momento. Quem já lutou contra a Ditadura quer colocar as forças armadas para reprimir manifestações populares. Corrupto processa corrupto sem a menor vergonha. A violência é combatida com violência. Uma mentira é desmascarada com cascatas de mentiras. Todo mundo ataca a corrupção pública sem atacar a corrupção privada. Uma sustenta a outra.

Aqui a coerência virou artigo de luxo. Então, o sujeito anda com adesivo em defesa da Ponta do Coral, mas estaciona o carro na calçada, fura o semáforo e dá aquele jeitinho brasileiro para furar a fila do restaurante e pensa que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Aqui os artistas adoram invadir tudo, inclusive a paciência do público. Gostam de contrariar e blasfemar contra governos e governantes. No entanto, quando alguém solicita que eles mostrem como gastaram o dinheiro público que receberam, a porca torce o rabo. Aqui, estudante de letras vende brotoeja sentimental nos sinaleiros sob o nome de poesia, quando deveria estar se dedicando a aprender a arte poética. Aqui o que é obrigação vira mérito, porque ter um pouco de correção é estar em estado de sítio. Aqui impera a lei do paradoxo do jumento e a estética do quanto pior, melhor.

 

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