Crônica da Semana, por Marco Vasques

ITINERÂNCIA DO ACASO

Por Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [03/03/2014]

Ele nunca entendeu, mesmo após muitos anos, o motivo pelo qual sua mãe exercia rigorosa tortura em seu corpo. Existem relatos familiares de que os espancamentos haviam começado já no primeiro ano de idade. Laurinda, uma tia louca, contou, no dia do seu casamento, que o tumor que retirou do dedo anelar foi resultado de uma paulada recebida quando possuía menos de um ano de idade. Ainda que procurasse, sofregamente, algum sinal naquele rosto incrustado de rugas, que pudesse revelar o exercício de tanto ódio, não conseguia. Talvez porque olhasse com demasiada ternura para aquela velhice empalidecida e de pedra.

Foi a partir dos sete anos de idade que começou a entender de amarguras. Foram muitas as pancadas, tantos os berros e os pedidos de piedade. Nada. Coisa alguma acalmava a irascível violência que percorria nos olhos de sua mãe. Seus irmãos assistiam tudo em silêncio, sem uma pequena manifestação de solidariedade. Ali também aprendeu que o homem é solidão. Que o coletivo é a putrefação do sonho. Aprendeu a arte do desinteresse pela vida. Porque, para ele, com sua diminuta capacidade de raciocínio, seus irmãos deveriam intervir e impedir tanta insânia. Só agora compreende que o limite entre a covardia e a defesa é uma questão simples de caráter.

Em uma de suas surras, a das mais violentas, reside um fato curioso. Aprendeu o princípio da verdade do acaso. O fato que provocou a violência não é mais relevante. Uma dessas peripécias infantis que todos cometeram. Pedra atirada numa galinha da vizinha. Melancia roubada na roça do avô. Um pé de laranjeira invadido antes do amadurecimento. Passarinho roubado da arapuca de um primo mais hábil ou o levantar da saia de uma prima. Enfim, foi numa dessas estripulias coletivas cometidas com os primos que seu irmão, sempre em silêncio durante suas dores, apanhou em seu lugar.

Como ambos dormiam num desses beliches antigos, num quarto minúsculo, ocorreu que certo dia eles resolveram trocar de lugar. Seu irmão dormiria na cama de baixo e ele na de cima. O frio contribuiu para o acontecimento, pois se cobriram das cabeças aos pés. Ela, ao adentrar a casa, já com ódio nos olhos e com o corpo em agitação, pegou o cabo de vassoura e começou a desferir golpes e mais golpes no corpo esticado na cama de baixo. Quando seu irmão saiu correndo pela casa, com um pouco de sangue no rosto, ela entrou em desespero e correu estendendo os braços cheios de perdão.

Ele, que tudo via, sorriu; alegre por assistir a um gesto terno vindo de sua mãe. Sabia que apanharia em dobro e, naquele dia, entregou seu corpo às chibatadas de fio elétrico com um riso doce entre os dentes.

 

 

 

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