Crônica da Semana, por Marco Vasques

BIOGRAFIA ESTRANGEIRA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [10/03/2014]

No princípio era o pasto, o mar, o canto dos pássaros e a imensidão do sítio de seus avós. Lagoas, rios, bichos e o verde dos matos em contraste com as variações do céu impostas pelas condições climáticas. Antônio já beirava os quinze anos quando recebeu a notícia de que sua mãe resolveu que todos iriam para a cidade. Hesitou em aceitar e se pôs a argumentar, já que era o mais velho dos filhos. Dentre todas as explicações, perguntou para sua mãe como levaria para a cidade seus quatorze cachorros, quatro gatos e dois viveiros cheios.

A cabeça em rotação máxima tentava achar uma explicação para a mudança súbita, afinal, a vida no interior não estava tão ruim. Tinham moradia própria, alguma terra onde plantavam o necessário, uns cabritos, uns gados além de duas lagoas, um rio enorme e o mar todo abundante de peixes, tatuíras, búzios, siris, mariscos e toda a sorte de bicho imaginável e inimaginável. Naquele momento, o que não existia, Antônio inventava. Não teve jeito. Sua mãe estava decidida a não ficar mais naquela terra amaldiçoada de seus pais.

Em menos de duas semanas o caminhão estava apinhado de móveis cobertos por uma lona verde-musgo. Sob a lona, Antônio via seu mundo se afastar, abraçado à única cadela que sua mãe permitira que ele levasse para a cidade. Quanto mais o caminhão se afastava, menor ficava o mundo de Antônio. Na cabine do motorista, sua mãe leva seus irmãos mais jovens, que pouco ou nada podiam entender. Antônio pensou em se jogar da carroceria, quando ainda estava próximo do sítio dos Oliveira. Aos poucos o mundo vai se tornando cada vez mais esquisito e ele já não consegue mais se orientar.

Naquele dia, algo nele foi rompido e, somente mais tarde, veio a entender que o sentimento crescente do desejo de morte se assemelha com o que chamam, na cidade, de suicídio. Ele pensou, durante toda a viagem, em pular no asfalto e ser esmagado pelos carros que perseguiam o caminhão. Hoje, quando pensa nesse momento, sabe que não se atirou porque estava abraçado à Nola, sua cachorra preferida. Antônio chegou à cidade e foi logo trabalhar numa empresa multinacional. Conheceu de cara o cheiro da fuligem, o barulho das máquinas, a competição, a violência e o inferno de ter que comer em quinze minutos. Virou um espírito estrangeiro. Passava parte do tempo em silêncio.

Tornou-se o menino estranho do bairro, da escola e todo passo que dava era regido por enorme insegurança. Entendeu que precisava de tempo para assimilar o mecanismo, a lógica da nova vida. Antônio se tornou professor e sabe que não passa de uma biografia estrangeira. Um expulso de si mesmo.

 

 

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