Os quartos – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 12/03/2014

Os quartos

Estou no centro de um quarto, no segundo andar de uma casa, localizada no lado oeste de uma ilha, que fica no meridiano sul. Sou um homem de estranhezas e silêncios nessa manhã de 2014. Tenho conversas comigo. Conversas quase sempre aleatórias. Sou assim desde menino: um parolaio, como dizem os italianos, mas não como um alto-falante e sim um auto-falante, aquele que diz muito para si, que remói e rumina as próprias falências e alegrias. Ao longo do tempo, pouco saí do centro dos quartos onde habitei. O primeiro dos quartos ficava ao leste. Algumas vezes o diálogo se dava com o sol da manhã, em outras com aquele canto escuro que acontece entre a parede a cama inferior do beliche. Na adolescência, outro quarto, mais ao centro da casa, também ao leste. Dessa vez o auto-falar-se vinha acompanhado dos pelos da puberdade, da magreza infinda, do destrambelhamento. Jovem, conheci outro quarto, aos fundos da casa, dessa vez no oeste. A conversa comigo mesmo acontecia quando o sol ia embora. Depois um quarto no segundo andar de um edifício plantado numa avenida movimentada. A janela era para o norte. Minhas falas já não tinham tanto norte, eram desordenadas, a infância havia acabado e o ser adulto não me acontecia. Foi um tempo em que as estranhezas, as falências e as misérias tiveram grande vitória em mim. Depois um outro quarto, novamente a oeste. Dessa vez longe das avenidas e movimentações. Foi um tempo de amainar, de baixar, de conversas mais amenas. Por fim outro quarto, novamente a oeste. Às margens de uma grande rodovia federal. O barulho dos caminhões não atrapalhava muito meu sistema auto-falante. Sedimentou-se em mim outras vontades, outros desvãos por onde me enfiei, homem de estranhezas que sou. Depois um quarto voltado para o sul, e depois esse quarto onde me encontro, nessa ilha onde me encontro e me concentro. Talvez hoje eu escreva mais do que fale comigo mesmo. Talvez hoje eu tenha conseguido um equilíbrio, frágil equilíbrio, entre falar e dizer, entre escutar e ouvir, entre olhar e ver. As estranhezas e falências permanecem da mesma forma que eu permaneço vivo, falando sempre comigo, sendo um parolaio.

Rubens da Cunha

 

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