Crônica da Semana, por Marco Vasques

OBITUÁRIOS

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia em [17/03/2014]

Ela costuma enfrentar a vida com poucas palavras. Observa e silencia o entorno com elegância. Apesar de carregar sob a pele um mundo de falências, olha para ele com aparente soberania. Veste-se com cuidado e passa pelas pessoas sem deixar vestígios, barulhos. Parece ter nascido para fazer da vida um breve sussurro. Detesta pessoas escandalosas, que falam em excesso ou berram como se estivessem palestrando à multidão. Passa o dia na mais ordenada das rotinas. Parece que a instabilidade, o imprevisto ou o improviso não lhe caem bem.

Gosta de passar pelas pessoas e não ser percebida. Odeia chamar atenção. O olhar do outro a perturba, a incomoda. Já na infância demonstrou uma necessidade de solidão. O silêncio, poucos amigos e o desejo de estabelecer relações rasas, sempre de superfície, fizeram com que passasse todo o colegial sem ter ido sequer a uma festa. Não ganhou o primeiro beijo enternecido da juventude, não teve paixões escolares e só foi entender a ideia de amizade já na vida adulta.

O ambiente familiar era opressor. A disciplina imposta pelos pais era cumprida à risca. Qualquer desvio implicava sermões de horas e alguns tapas no rosto. Sempre exigiam que os filhos fossem regidos e orientados pelos princípios cristãos. Somente após a morte de praticamente toda a família é que veio refletir sobre o ambiente de intolerância, de asfixia e de hipocrisia a que esteve submetida. Quando olha para os quadros religiosos, herança de sua mãe, consegue ver que foi domesticada na cultura do horror e do medo. O fogo, aquela labareda vingativa que consome a ideia de Deus e que instituiu o inferno, está presente, ainda hoje, nos fantasmas que povoam seu corpo.

Não esquece, jamais poderia, da frieza que seu pai possuía nos olhos ao colocá-la sobre uma cadeira, para que ficassem por minutos em silêncio um olhando no olho do outro. Depois ele colocava sua mão esquerda encaixada nas suas mandíbulas, segurava com muita força e, com a mão direita, desferia tapas e mais tapas exigindo que todo o choro fosse engolido, represado. Quando seu pai morreu, fez questão de pagar um obituário anônimo dizendo que os demônios nunca morrem e, infelizmente, as crueldades cometidas pelo defunto são a perpétua herança familiar. Ela, ainda hoje, dorme no sofá da sala. Não consegue descansar em qualquer cama. Se pudesse, colocaria fogo em todas as lojas que vendem estas camas grandes, de casal. Quando a mãe morreu, fez questão de pagar o dobro por outro obituário anônimo, dizendo que foi uma mulher que sempre violou mulheres. Tratava-se de uma mulher que viveu com as mãos pútridas.

 

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