“Chora peito” – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Noticia em 19/03/2014

Chora peito

Ouve novamente uma canção há muito não ouvida. Eram tempos de adolescência. Tempo dos cantos, não os musicais, mas aquele lugar onde as paredes se encontram. Enquanto a canção lastima um amor perdido, ele lastima a quantidade de paredes que criou para si. Eram duras paredes invisíveis. Hoje, não pensa tanto nos cantos que os outros construíram para ele. Isso vem das relações, dos jogos de poder, da própria forma como nos estabelecemos em comunidade. Porém, os cantos, as paredes, os muros, os abismos que ele próprio fez são os mais tristes de lembrar. A canção continua soando as lamentações de um amor impossível, mas nele ecoam as lamentações de um certo arrependimento. Justamente aquele arrependimento de que falam as mensagens clichês: melhor se arrepender do que se fez do que daquilo que não se fez. Melhorou muito, é certo. Ouve agora as canções sem chorar, sem se transformar num dos personagens tristes e desiludidos. Isso era algo que ele fazia sempre, era a sua maneira de fugir, de ultrapassar as paredes invisíveis, de viver para além dos cantos. Assim, os cantares que vinham pelo rádio, as canções muito simples e diretas que chegavam até ele serviam como escape. Talvez esse seja outro de seus arrependimentos: escapou quase sempre, pouco fez para derrubar as paredes, os cantos. Se a canção pedia uma morte rápida para acabar com o sofrimento, ele morria também rapidamente. Se a canção lastimava a solidão de um abandono, ele também se abandonava canção adentro. Fez isso inúmeras vezes. Adultou-se assim. Depois vieram outras canções, alguns filmes, poemas. Algumas paredes invisíveis já não pareciam tão difíceis de suplantar. Não que tenha se conformado, ou se resignado, mas aprendeu com os cantos e pelos cantos a viver sem tantas sombras, sem tantas fugas, sem tanto entrar nas canções alheias. É como se ele tivesse conseguido também criar suas próprias canções. Obviamente, ninguém escapa ou esquece realmente aquilo que foi. Quando ouve a canção há muito não ouvida, ressaltam-lhe certas memórias, certos entristecimentos. Mas nada de lamentações agora. Nada de lembranças amargas de um tempo amargo. Está melhor, pois pode ouvir o canto triste sem ser um triste no canto.

Rubens da Cunha

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2 respostas para ““Chora peito” – Crônica de Rubens da Cunha

  • Maurélio Machado

    Lembrou-me da música Chora peito.

    Chora Peito
    Chrystian & Ralf

    Olho na janela a minha frente
    E junto com a chuva
    Choro a falta de você
    Não vai adiantar
    Dizer que não te quero
    Você é minha luz, o meu céu, o meu ser

    Em algum momento de incerteza
    Olhe nos meus olhos
    E você vai ver
    Refletidos neles
    Nossos momentos lindos
    Vale a pena crer
    Nesse grande amor

    Chora peito
    Me mata de uma vez
    Porque aos poucos
    Eu não vou morrer

    Chora peito
    Me mata de uma vez
    Pra não dar tempo

    Em algum momento de incerteza
    Olhe nos meus olhos
    E você vai ver
    Refletidos neles
    Nossos momentos lindos
    Vale a pena crer
    Nesse grande amor

    Chora peito
    Me mata de uma vez
    Porque aos poucos
    Eu não vou morrer

    Chora peito
    Me mata de uma vez
    Porque aos poucos eu não vou morrer

    Chora peito
    Me mata de uma vez
    Pra não dar tempo

    Chora peito
    Me mata de uma vez
    Porque aos poucos eu não vou morrer

    Chora peito
    Me mata de uma vez,
    Porque aos poucos eu não vou morrer

    Chora peito
    Me mata de uma vez
    Pra não dar tempo

    ABRAÇOS MESTRE RUBENS

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