Crônica da Semana, por Marco Vasques

DITADOR DIALÉTICO, DITADOR DEMOCRÁTICO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [24/03/2014]

A censura é um ato abominável. Ficou muito famosa, no Brasil, durante o Regime Militar. Possui inúmeras gradações e está mais presente em nossa vida do que podemos imaginar. O censor quase sempre está cercado de asseclas que pensam e falam as mesmíssimas coisas. Sejam elas coordenadas por um trapezista bêbado ou por um intelectual racional. Quanto mais iguais, unidos e coesos em suas ideias fixas, mais disfarçada fica a censura. O filósofo e dramaturgo francês Alain Badiou tem escrito muito sobre a falência da democracia, sobre as camadas de ditadura que construímos sobre o aparente aparato democrático. O censor, por mais dócil que seja sua fala e suas defesas, carrega em seu sangue a filosofia do ódio e a cultura do medo, do terror.

A censura está nos editoriais de jornais, na boca de sindicalistas, na fala de artistas, nos discursos de políticos, no comportamento do homem que se considera um machão, nos fundamentalistas de toda a ordem que se inflamam contra as minorias, nos fundamentalistas das minorias, na ironia do patrão, no preconceito generalizado, no sistema econômico, na massa binária que ainda acredita que de um lado está o mal e de outro o bem, em organizadores de festivais que não aceitam uma voz dissonante e em tudo o que é associativismo cego. O censor não respeita o lugar, o olhar e o saber do outro. Ele detesta pessoas que pensem diferente, que apresentem outras possibilidades de se enxergar os caminhos. Ele odeia a solidão porque o silêncio o deixa fraco das ideias.

Temos um índice incurável de censores. A prática se generalizou. Como os censores entendem muito pouco de linguagem, elegem como prática primeira inverter, distorcer, reescrever a fala de suas vítimas. Sufocam — quando não matam — o seu alvo, e depois inventam um discurso paraplégico que justifique o uso da força. Chegamos ao grau máximo do disfarce da censura. Aqui, a alcunha de ditador dialético, praticamente impensável em outras plagas, virou insígnia e desperta olhar de cobiça.

  Os ditadores dialéticos inventaram outro título digno de estudo: o ditador democrático. Esse é fácil de identificar. Comum entre artistas, gestores públicos, políticos e produtores culturais, nunca fala apenas em seu nome. Não defende ou expõe ideia alguma sem aclamar a anuência coletiva. Julga-se no direito de falar em nome do “setor”, sem ao menos saber quem é o tal “setor”. O que é mais intrigante é que ele discursa sem que a maioria dos que poderiam ser considerados “do setor” sequer saibam da sua existência. Mas nada importa, porque ele tem a panaceia para tudo.

Anúncios

Uma resposta para “Crônica da Semana, por Marco Vasques

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: