Crônica da Semana, por Marco Vasques

OS DIFERENTES, PORÉM IGUAIS

Por Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [31/03/2014]

 

Existe, em Bundópolis, um grupo de pessoas que faz tanto, mas tanto esforço para se tornarem diferentes que acabam iguaizinhas. Engana-se, no entanto, quem pensa que a semelhança que construíram as diferencia de algo. No fundo, por mais estranho e estapafúrdio que pareça, se tornam idênticas às pessoas das quais pretendiam diferir. Mas o que dizer de uma terra em que a autoimaginação e o autorretrato são moedas correntes? Sim, aqui todo mundo avalia a si próprio. Aqui a tônica é inventar-se, mentir-se.

Um exemplo? Aqui qualquer um é artista. É só a figura dizer que é artista, usar umas roupas descoladas, mandar umas duas notinhas para o jornal, conseguir uns quatro bajuladores, odiar todo e qualquer político, ter um projetinho aprovado em edital público, inscrever-se numa setorial qualquer, ver sua carinha estampada uma vez por ano no caderno de cultura e falar em política cultural com gana de um pastor fundamentalista. Pronto: eis um artista. E a obra? Ter obra é coisa do passado, porque agora o que vale mesmo é o processo.

É evidente que aqui temos, também, um amontoado de obras que não valem para nada, e geralmente essas obras são produzidas pela turma que diz que obra não interessa; contudo, quando o calo aperta e se faz necessário aprestar algo, aí se monta uma peça teatral de qualquer jeito ou se escreve um livrinho da noite para o dia, e temos o gênio do momento. Vê-se com isso que, na arte, a democracia irrestrita é uma possibilidade. Ou seja, todo mundo faz o que quer (ou pode) e não há ninguém que tenha o direito de impedir. Não existem leis, ainda bem, que impeçam poetas medíocres de fazerem seus versos ou atores amadores de se insuflarem nos palcos como se fossem deuses.

Então, esse povo diferente, que esbraveja (muitas vezes com razão) contra tudo e todos, precisa mostrar alguma coerência. Precisa aprender a conviver com a diferença de pensamento, ainda que ele lhe pareça equivocado. Uma vez detectado o equívoco, é importante desfazê-lo com argumentos, não com atos ditatoriais. Não há nada de errado em se agrupar para reivindicar direitos óbvios; não há nada de errado em exigir coerência e clareza nos atos públicos de políticos; não há nada de errado em querer ser artista; no entanto, quando este grupo que se pensa diferente não consegue conviver com o confronto e com o debate, torna-se igual aos iguais que tanto combatem. Foucault já disse: “Todas as minhas análises se contrapõem à ideia de necessidades universais na existência humana”; e arremata: “o papel de um intelectual é mudar alguma coisa no pensamento das pessoas”. Mas aqui, querem é que as pessoas se mudem!

 

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