Maurice Blanchot e a escrita

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 02/04/2014

Escrever: ação humana, cujo significado tem atravessado, preenchido, nublado, esclarecido a mente de muitos que se dedicaram, ou se dedicam, à tentativa de capturar esse mistério dentro dos limites de um conceito. Um conceito que seja capaz de resumir as inúmeras possibilidades que essa ação comporta. Quanto mais difícil é o objeto de ser conceituado (ao lado da escrita, podemos pensar o escritor, a literatura, a poesia, o tempo, a vida, a morte, Deus), mais são as vigílias, mais longas são as tocaias, a busca incontida efetuada pelo pensamento para propor conceitos aptos a prender, apreender, compreender o objeto a ser capturado.
O escritor francês Maurice Blanchot foi um dos que mais preparou essas armadilhas. Ele passou grande parte de sua vida como se estivesse em tocaias. A busca de Blanchot foi feroz, tanto que o homem público quase desapareceu, camaleou-se, pensamento adentro, para dar conta da vigília, do ato de caçar conceitos sobre escrita, sobretudo a escrita literária. Existem apenas duas ou três fotografias de Maurice Blanchot em lugares públicos e apenas dos tempos em que era mais novo. Era um recluso, um homem focado na escrita, no processo criativo, no pensar contínuo sobre o escrever, sobretudo, escrever literatura. Blanchot, tendo por fundo a reflexão sobre a escrita, pensou também sobre a morte, o nada, a entrega, sobre a ambiguidade da linguagem literária, ou seja, a partir do pensamento sobre a escrita e pela escrita ele criou uma das obras mais profundas do século XX.
Escrita: em Blanchot, dois gumes. Nele, a escrita foi tanto o animal-texto-conceito a ser caçado, quanto a própria armadilha-texto, arapuca-texto amarda ao longo dos anos, pacientemente, para dar conta dessa carne dúbia, desse objeto atacado que é, também, o próprio atacante. Outro importante escritor, Georges Bataille, dizia que para Blanchot, a literatura é parecida com a chama de uma lâmpada. O que a chama consome é a vida, porém a chama é vida na medida em que é morte, na medida em que justamente morre, como a chama esgota a vida ao arder. Eis a escrita literária, uma reviravolta radical, um continuo reescrever, não somente o texto, mas a própria vida que se consome a cada dia.

Rubens da Cunha

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Uma resposta para “Maurice Blanchot e a escrita

  • Maurélio Machado

    O conceito de vida/morte: ” O que a chama consome é a vida, porém a chama é vida na medida em que é morte, na medida em que justamente morre, como a chama esgota a vida ao arder. ” Grandiosos mestres Maurice Blanchot e Geroges Bataille. Crônica encantadora poeta e amigo Rubens, abraços.

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