Crônica da Semana, por Marco Vasques

 “Esta é Friboi!”?

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [07/04/2014]

Os semáforos que circundam a Universidade Federal de Santa Catarina estão inundados de estudantes pintados com placas dependuradas nos pescoços. As frases vão de sugestões sexuais a práticas mais abomináveis de preconceito. Os calouros, assim chamados pela irmandade de veteranos, são submetidos a toda a espécie de humilhação. Para além do suposto ritual de passagem, existe muito do que somos socialmente, ao analisarmos este bando de gente jovem sendo violada, violentada no que tem de mais seu, o corpo.

No resumo da ópera, o que vemos é uma gurizada que solicita algum dinheiro para que as suas roupas, seus documentos e o seu corpo sejam liberados, mas não sem antes sofrer mais umas humilhações verbais, não bastasse ficar abaixo de sol ou chuva, todo o dia, até que a quantia determinada pelos experientes arautos da ciência e da tecnologia seja atingida.

A demonstração de poder e força apresentada, as circunstâncias vexatórias a que as jovens são expostas, a ideia de que quem esboçar alguma resistência terá uma vida acadêmica no isolamento e no constrangimento, as ameaças e pressões psicológicas, os porres a que os calouros são submetidos e mais uma quantidade infinda de abusos mostram que aceitamos com tranquilidade que o mundo seja dividido em superiores e inferiores, pobres e ricos, fracos e poderosos.

Os calouros, também conhecidos como “bichos”, são submetidos ao trote com requintes de tortura e de disciplina militar. A palavra trote, para lembrarmos, existente em diversas línguas, está relacionada ao movimento do cavalo; por aí já se vê que o campo semântico usado pelos seus aplicadores já demonstra a exploração e a vexação da coisa.

Aqui é assim, adoramos ver o outro subjugado. Dias atrás uma moça apareceu num programa de televisão e foi humilhada à exaustão por um apresentador de tarde de domingo. O que deu de escritores, dançarinos e intelectuais anuindo o ato do apresentador, aviltando ainda mais a garota nas redes sociais não é brincadeira. E olha que, dentro da famigerada lógica de mercado, a pobre da garota pensou certo, mas se expressou mal. Porque o que ela quis dizer é que, se nada der certo, ela tem um corpo dentro dos padrões que a nossa sociedade permite que seja vendido, que tem apenas 22 anos e pode ser comprada e consumida por toda essa gente hipócrita e ignara que não viu na atitude do apresentador mais um reforço, em rede nacional, das nossas crueldades. Ela é fruto de um país arraigado na ignorância, na falta de educação e no preconceito.

Ah! E o que dizer de futuros médicos que escrevem numa jovem a frase “esta é Friboi!” e a fizeram ficar o dia inteiro no semáforo?

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