Tempo de mudança – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 16/04/2014

Tempo de mudança

Talvez seja tempo de abrir mais e melhor as janelas. Tempo de restauros, tempo de changement, como diriam os franceses. Tempo de assumir novas rédeas, de controlar a carruagem da vida. Como naquelas cenas dos filmes de faroeste, em que os cavalos disparam e é preciso arriscar-se para conter a velocidade. Mas às vezes também é preciso fazer a carruagem disparar, é preciso fugir, saber se afastar, saber sair de cena. Hora de correr, hora de conter, hora de aparecer ou desaparecer. Enfim, tudo é contexto, tudo será decidido conforme o momento. O que não deveria parar de existir é o desejo de mudança, aquele “Hoje eu vou mudar, vasculhar minhas gavetas, jogar fora sentimentos e ressentimentos tolos” cantado por Vanusa desde os anos de 1970. A canção tem uma pegada feminista: “deixar de ser menina para ser mulher” que poderia ser adaptada, nos dias de hoje, a qualquer gênero. Na verdade, melhor seira que todos, homens e mulheres, cantemos a canção de Vanusa assim como ela foi feita: bem no feminino.

Retomando a imagem da carruagem nos filmes de faroeste, é preciso sempre crescer para assumir as rédeas, seja para conter a disparada da carruagem, seja para fazê-la disparar. Obviamente, o ideal seria que não deixássemos nada para trás. Que pudéssemos ser menina e mulher, que escolher não fosse perder, que a vida prática pudesse conter realmente o sonho contido em um dos versos de Adriana Calcanhotto: “eu nunca faço escolhas, eu quero sempre tudo”. O tempo, um dos deuses mais lindos, segundo Caetano, urge e ruge ao nosso redor. O que o tempo tem de lindeza tem de ligeireza. Já que somos, biologicamente, uma mudança constante, talvez seja o caso de dar uma força à natureza, de agilizarmos e aceitarmos as perdas, os arrependimentos, de aceitarmos a flacidez, os descaminhos do corpo e encontrarmos, justamente nesses descaminhos, algumas solaridades, afinal como diz Aldir Blanc, “o filme da vida não quer despedida” mas a despedida vem. Vem para todos. Então, que seja tempo de sermos um pouco de desapego também, e abrirmos as janelas e que assumamos as rédeas e façamos a carruagem disparar ou conter-se frente ao abismo.

Rubens da Cunha

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Uma resposta para “Tempo de mudança – Crônica de Rubens da Cunha

  • Maurélio Machado

    Nem parada, nem disparada,procuremos dirigir nossa carruagem com mãos firmes, proporcionando segurança aos nossos passageiros e garantindo a chegada sem atropelos ao destino.
    O que o tempo tem de lindeza tem de ligeireza.(Uma verdade que incomoda). Bela crônica, uma das melhores dos últimos meses.Obrigado pela visita à minha coluna do Jornal Evolução e dos gentis comentários Mestre,poeta,escritor e amigo Rubens da Cunha, abraços.

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