Crônica da Semana, por Marco Vasques

CISÕES SILENCIADAS

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [24/04/2014]

 

            A sutileza nas relações familiares está em todos os lares. É uma bomba, quase sempre não implodida. Ela mora no silêncio das tardes de sábado, se instala nos olhares diários, no constrangimento dos almoços de domingo. Tristezas, alegrias, frustrações, desejos, inveja, medo, sufocamento, decepção e a sensação de incompreensão atravessam todas as relações — seja no trabalho, na escola ou no futebol. No entanto, é entre os familiares que as diferenças e as acusações se perpetuam ano a ano.

            Um pai que não aceita a opção sexual de seu filho; a mãe que não aprova o namoradinho da filha adolescente; o filho que não tolera os porres diários do pai; a irmã que se sente preterida pelo irmão paparicado; o avô que não aceita os novos padrões da vida de seus netos; a tia que maldiz o sobrinho que optou por viver como andarilho; a avó que vocifera contra o cheiro de maconha do enteado da filha; a sobrinha que suporta as constantes violações do tio no mais pétreo silêncio; enfim, são tantas as amarguras silenciadas, que, um dia, sem aparente motivo, alguém resolve abrir as feridas e espalhar vastas doses de amargura, isto é, resolve romper a cisão já existente.

            As perguntas que deveríamos nos fazer são: por que vivemos tanto tempo sendo arrastados pelas aparências? Por que convivemos grande parte de nossa única vida nos desviando do confronto que nos oprime e nos incomoda? Qual o motivo que nos leva a fazer tantas concessões? As respostas são muitas. Para mantermos nosso emprego. Para manter uma harmonia familiar que nunca existiu. Por medo. Para não ferirmos um ente que realmente amamos. Para preservar o convívio e, sobretudo, porque temos medo das decisões abruptas que geram rupturas definitivas.

            Nascemos sob a cultura do medo e marcados pela punição. Talvez um dos maiores desafios que temos hoje, sobretudo as mulheres, é o de quebrar a corrente do medo instaurado por séculos de privação, de humilhação e de domínio masculino — com enorme contribuição das religiões. Engana-se quem pensa que as questões de gênero estão resolvidas. Em condições normais, defenderíamos a dissolução completa da noção de gênero. Em condições racionais, somos todos humanos e temos os mesmos direitos; contudo, ao pensarmos nas inúmeras cisões pelas quais passamos em nossas moradas, podemos perceber que as vozes que vociferam com frequência suas verdades são as vozes do pai, do irmão, do padrasto, enfim, a voz do homem impera. Tudo isso porque nós, homens, somos pouco afeitos à escuta e menos afeitos ainda a entrar no tatame em condições de igualdade. Quase sempre ofendemos quando deveríamos apenas nos calar.

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