Breve balanço poético – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 23/04/2014

 

Breve balanço poético

Estou há muito tempo sem escrever um poema. Há muito não me despeço de mim e me entrego ao delírio e deleite de construir um objeto de palavras. Faz tempo que não me enxergo. São as condições da vida, são as escolhas, são os mistérios que não tem se adonado de meu corpo. Resolvo então vasculhar minhas quinquilharias antigas no meu blog. Quais poemas eu estava fazendo nos abris passados? O que me levantava a poeira naqueles dias?

Em 20 de abril de 2006 eu disse: “quase é palavra cheia, palavra certa para os meus completos”. Olho esse epigrama nada engenhoso, é uma criança de 8 anos, uma criança esquecida entre meus guardados, abandonada por mim porque não se completou, porque ficou sempre no pantanoso terreno do quase: quase poema, quase verdade, quase vontade de se fazer algo.

Um ano depois eu escreveria: “o barulho fere o concreto, lâmina imparcial sobre a cidade, o barulho faz eclipses, sobre o muro-homem, o murcho homem que, incapaz de silenciar, jumenta-se.” Talvez seja reflexo do tempo em que eu morava ao lado de uma rodovia, do tempo no qual jumentar-se era uma condição diária. O bom de revisitar o passado é que a jumentação agora é outra. Mudanças ocorreram, apesar do barulho ainda ferir o concreto diariamente.

No abril seguinte: “eu corpo: azul em névoa, ilha, porto, náufrago que sou, voltei a respirar Deus”. Mais um exercício perdido, entre o auto-erotismo e o divino. Eram tempos preguiçosos os de abril de 2008. Parece que respirar Deus não adiantou muita coisa. No ano seguinte lá estava eu experimentando os minicontos: Intitulado “Novela Mexicana”, eis: “Cristóbal morreu ontem. Diagnóstico: um amor desvairado por Esperanza, a porca.” Confesso um certo arrependimento por ter começado esse percurso pelos abris passados. Pulemos essa afronta e seguimos a 2010. No dia 12 de abril eu postei uma canção e dei o título do post de “enquanto o poema não vem”. Ou seja, as agruras, os brancos, os espaços em que se entregar à escrita de poemas vem me acompanhando desde sempre. Escrevo quando se abrem algumas clareiras, quando aparecem vãos, desvãos e desvios em mim.

Por isso, enquanto os poemas não vêm, fico por aqui, nessas crônicas tentativas.

Rubens da Cunha

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