Crônica da Semana, por Marco Vasques

 

ANOTAÇÕES SOBRE CRÍTICA TEATRAL

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [28/04/2014]

 

O crítico é apenas mais um operário do teatro e, como tal, comete leituras questionáveis. Ele pode até, em algumas circunstâncias, desejar orientar o olhar e o gosto do público. No entanto, isso está fora de seu alcance. Um crítico, tal qual um ator ou um diretor, é testemunha do movimento teatral de um período e possibilita que se reconstrua, muito parcialmente, parte do caleidoscópio cênico de certos períodos por meio de seus escritos e de suas análises.

Parte da atividade teatral brasileira do século XIX e de meados do século XX, por exemplo, vem sendo revisitada, estudada, historicizada e repensada a partir de pesquisas feitas nos periódicos da época. Críticos como Décio de Almeida Prado, Yan Michalski, Sábato Magaldi, Clóvis Garcia, Sebastião Milaré, Luis Fernando Ramos, Maria Lúcia Candeias, Mariângela Alves Lima, Jefferson Del Rios, Gustavo Dória e mesmo a atividade de escritores como Machado de Assis, José de Alencar, Alcântara Machado, entre muitos outros, possibilitam, pelo registro crítico e muitas vezes opinativo, que alguns percursos e caminhos sejam explorados ou revisitados por historiadores, alunos, professores e pesquisadores.

Inicialmente registrada, em sua maioria, por profissionais da literatura e por jornalistas, hoje temos outra realidade, porque a crítica e a ensaística têm se avolumando com os surgimentos de cursos de graduação e pós-graduação no país. Por isso se faz necessário discutir e rediscutir o papel da crítica. Com o desenvolvimento das artes cênicas, a crítica ― antes restrita aos homens das letras ― vai ganhando autonomia e especificidade próprias, a ponto de o crítico se tornar uma autoridade, uma voz importante no discurso e na prática teatrais.

Reverenciado por uns e execrado por muitos, é preciso desmitificar a figura do crítico. Ele não é um deus. Por isso é necessário redimensionar sua função dentro do teatro. Há, no exercício da crítica, não apenas a função estética, mas também a social daquele que é apenas mais um trabalhador de teatro. Essa função social tem como uma de suas implicações a aproximação do público à linguagem cênica. A função primeira desta figura, que nada mais é que um leitor de espetáculos, é analisar o ato teatral, sempre mergulhado na proposta e nos elementos dados pelo espetáculo, não cabendo, apesar das dificuldades de se fincar estacas e definir territórios, distorções de ordem e origem pessoais. Um crítico é sempre consequência de um movimento, nunca causa. E o que seria um bom crítico? Aquele que escreve por afeição à forma poética da linguagem teatral.

 

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