Breves anotações ao amanhecer – Crônica de Rubens da Cunha

 

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 30/04/2014

BREVES ANOTAÇÕES AO AMANHECER

1

Amanhece, faz algum frio. No mundo, algumas friezas se manifestam. Na Espanha atiram uma banana para jogador Daniel Alves que, ironicamente, come a banana e segue o jogo. O ato é aclamado como uma inteligente resposta à estupidez racista. Minutos depois, a internet já havia pulverizado a força política do ato do jogador e tinha transformado tudo em espetáculo, em mercadoria promocional para muitos. Muitos defendendo que o racismo e os racistas precisam ser ignorados. Somos todos macacos, é certo, mas ignorar a estupidez do racismo seria a melhor solução? Não é isso que nós estamos fazendo desde sempre, alimentando o mito da democracia racial, do país miscigenado? Ignorar é ferida ajuda a curá-la, a cicatrizá-la?

2

Amanhece. O cão doente na varanda. Recupera-se lentamente. Está velho, o cão. No mundo, cães e velhos andam conforme a sorte, o destino, as circunstâncias. Alguns estão bem, outros abandonados ao deusdará de todo dia. Cães e velhos, sobretudo os velhos cães, caminham lentos pelas ruas, praias, admoestam os jovens, admoestam aqueles que tem pressa e precisam viver, viver, viver. Viver é preciso, mas olhar os cães e os cães velhos também é preciso. Eles chegaram lá, eles conseguiram.

3

Amanhece. Notícias pululam. Tanta informação, quase nenhum conhecimento. Não que isso possa assustar pois cada era convive com algo que a torna diferente. A nossa convive com isso: massificação irrestrita das informações, manipulação constante dos meios de comunicação e clichês. Somos a era dos clichês. Cada um de nós tem os seus de estimação, porém tem um povo criando uns clichês tão perigosos, tão atrasados eticamente. E pior: fazem questão de soltar seus clichês diariamente para pastar nas caixas de comentários dos portais de notícias. Muitos se protegem no anonimato, outros nem isso, são tão orgulhosos de seus filhinhos clichês pastando nos campos da internet.

4

Amanhece. Hora de enfrentar as obrigações e os prazeres diários. Temos que ir, temos que cair no mundo, para que o mundo não caia de vez. Muito se faz de errado, mas muito também se faz de certo. Hora de escolher, hora de largar os clichês, hora de não optar pela indiferença, hora de ver os cães e os velhos.

Rubens da Cunha

 

Anúncios

2 respostas para “Breves anotações ao amanhecer – Crônica de Rubens da Cunha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: