Crônica da Semana, por Marco Vasques

ANOTAÇÕES SOBRE CRÍTICA TEATRAL 2

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [05/05/2014]

 

O exercício da crítica teatral, como afirmamos, é a consequência de um movimento artístico que se estabeleceu por sua produção constante e pelo surgimento de linguagens que comportam análises diversas. Em síntese, a crítica, em toda e qualquer área, nunca é causa. Ela sempre é um fragmento de um todo. Há sempre um outro objeto ou discurso que a precede. Não faltam, também, quem defenda que a crítica é uma forma de arte; ainda assim é uma forma de arte provocada pelo diálogo com outra obra. Portanto, insistimos em localizar a crítica, ainda que ela possa pleitear sua autonomia como monumento artístico, ancorada na consequência. Existe, por outro lado, anjos anunciadores que destroem a noção de obra e erigem discursos que, contraditoriamente, afirmam novos modelos de obra.

A discussão sobre a função social da arte e da crítica de arte não é nova e vem, no decorrer da História da Arte, angariando adeptos fervorosos e rebatedores acerbos. A questão da funcionalidade da arte faz com que ela se assemelhe, para muitos teóricos, à equivalência de mais um produto qualquer solto neste mar de consumo em que navegamos. A presença do mercado como regulador das celebridades instantâneas das artes está permeada de defensores dóceis e refratores implacáveis com a prostituição generalizada que o tal mercado impõe. O papel da imprensa, seja ela diária ou especializada, que reserva espaços generosos a uns experimentos e gera esquecimentos voluntários a tantos outros, está longe de ser um ponto de consenso. O papel da academia anda, igualmente, nesta diáspora entre a afirmação e a negação do que venha, enfim, a ser arte e a sua importância no âmbito social, político e econômico. Por fim, convivemos com a contraditória e conturbada relação do Estado com as artes.

O que pretendemos com essa pequeníssima reflexão? Apenas problematizar a questão da arte como agente social de transformação. Porque a arte está desincumbida de juízos morais e de transmitir mensagens. O teatro pode ser usado para que se atinja objetivos que não sejam expressamente artísticos; no entanto, queremos reivindicar que tal abordagem seja localizada e conceituada para que não tenhamos a mutilação e as contaminações incestuosas que pululam nos palcos brasileiros. Que a psicologia use o teatro para recuperar seus pacientes, mas que saibam que continuam fazendo psicologia; que estudantes usem o teatro para conhecer a literatura, adaptando livros, mas que saibam que estão tratando de literatura como fim e que o teatro é um meio para se chegar “mais facilmente” aos autores selecionados nos vestibulares.

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