Considerações sobre o poético – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica de Rubens da Cunha, publicada no Jornal A Notícia em 07/05/2014

Considerações sobre o poético

            O que seria algo poético? É possível pensar o conceito de poético para a além da subjetividade, do gosto pessoal? O poético é um predicado que não encontra consenso fácil, pois adjetiva justamente a poesia, essa “substância impalpável, rebelde a definições”, como diria Octávio Paz. O próprio Paz dedicou inúmeros textos a essa questão, sobretudo tratando a poesia como a “outra voz”, não uma voz transcendente ou além do túmulo, mas a voz “do homem que está dormindo no fundo de cada homem. Tem mil anos e tem nossa idade e ainda não nasce. É nosso avô, nosso irmão, nosso bisneto”. Essa voz que atravessa as idades, que se mantém sobre a linguagem como uma casca, uma tinta longeva, pode ser vista também como o poético. Podemos pensar nessa voz poética como vizinha do pensamento. Tal imagem é proposta por Heidegger. O pensamento seria muito mais do que apenas ratio ou conhecimento, ele “abre sulcos no ser”, portanto, podemos inferir que é nessa abertura, ou nessa clareira, que se instala e se avizinha a linguagem poética. O poético seria uma multiplicidade de sons e signos, uma espécie de sensibilidade que se presentifica não apenas pela razão, mas por todo o corpo daquele que tem contato com ele. Paul Valery traça uma analogia entre o poético e o sonho. O estado poético se instalaria, se desenvolveria, e em último sentido, desregraria os que entram em contato com ele. Trata-se de um estado completamente irregular, inconstante, que se encontra ou se perde por acidente. No entanto, é nesse estado sub-reptício, liso, por assim dizer, impossível de se decidir, que se faz o poeta. Este mesmo poeta que não tem a função de sentir o estado poético e divulgar algo tão privado, mas sim de criar nos outros um estado poético. É como se fosse uma solidariedade que o poeta, pela linguagem, entrega ao leitor: ouvir a outra voz, levar o pensamento aos terrenos da vizinha poesia, transitar nesse mundo etéreo e inconstante do sonho, seria o trabalho do poeta, seria o ver ao mesmo tempo o vidro e a paisagem e fazer com que seu leitor também possa ver, não apenas as mesmas coisas, mas uma série de outras possibilidades a partir desse contato com o poético.

 Rubens da Cunha

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Uma resposta para “Considerações sobre o poético – Crônica de Rubens da Cunha

  • Maurélio Machado

    O gosto pessoal muda, se deteriora, diria até que se rende à realidade e aos costumes sofisticados. Tenho comigo a poesia”Alma de poeta”de José Jorge Letria e transcrevo parte de sua arte:
    “quero ouvir de novo a tua voz
    na campânula de som dos meus dias
    inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
    Subirás comigo as ruas íngremes
    com a certeza dócil de que só o empedrado
    e o cansaço da subida
    me entregarão ao sossego do sono.

    Quando eu for pequeno, mãe,
    os teus olhos voltarão a ver
    nem que seja o fio do destino
    desenhado por uma estrela cadente
    no cetim azul das tardes
    sobre a baía dos veleiros imaginados.
    Abraços, e até Mestre Rubens.

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