Solidez e liquidez – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 14/05/2014

anotações para o livro anatomia da pedra & tsunamis – de Marco Vasques

Eis a pedra e sua anatomia. A anatomia da pedra é uma dureza, um sólido composto pela dor arenosa da tragédia, pelo caos ocasionado por uma surpresa-terremota. Eis a anatomia da pedra e seus membros farpados, seus olhos e boca lascados, como no tempo da pedra lascada, como no tempo ancestral em que pedras eram ferramentas, cama e parede, eis a anatomia da pedra perfazendo o caminho de um tremor. O tremor de uma ilha pobre, de uma ilha que desabou num dia qualquer e que reverberou num poeta que estava a quilômetros de distância. “abraços me alcançam / deste / cemitério de cinza / mastigo / o jardim de desespero”. Eis a sopa de pedra que gera a agonia, o clamor e o poema. Eis a anatomia de pedra que nunca se fez no coração do poeta. Empatia da carna viva, da carna que jamais se petrificará, pois feita de vida e morte, feita de começo e fim. Carne muito longe da pedra, a do poeta. A anatomia da pedra é um mistério tectônico, um mistério que vive no silêncio e às vezes brota em algum lugar. A anatomia do poeta é uma antena, um vaso receptor, um poema que se derrama vasto por sobre o papel.

Eis também os tsunamis. Eis o líquido varrer depois do tremor. Dessa vez é a água que chega, a mesma água mole que de tanto bater na pedra cava seus buracos, cava seus caminhos e indesistente, continua, segue melíflua por sobre todas as coisas. No entanto, as águas dos tsunamis não tem sutileza, não tem invisibilidade, são grandiosas águas que adentram as fronteiras, espalham-se por sobre a terra, se fazem “o azul de Mefisto na carne e nada de missas e salvação”. São ondas que admoestam os vivos, que estranham a paz dos lugares. Eis os tsunamis do poeta em dupla luta: contra aqueles tsunamis da natureza e contra os tsunamis dentro da indiferença humana. Eis o tsunami transposto ao poema, posto em palavras líquidas que açudam as páginas. Fazem dela tremor e maremoto, silêncio e estrondo, fazem das páginas contrários que se atraem, se amoldam ora em anatomia, ora em pedra, mas também em água que arrasta, que sequestra, que não tem paciência para escolher os buracos, os cantos, pois “tsunami é alma”.

Rubens da Cunha

Rubens da Cunha

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