Crônica da Semana, por Marco Vasques

 OUTRO CAMINHO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [19/05/2014]

Ao chegar em casa, passa a mão nos ombros. Eles estão tensos, duros.  Pensa que nunca esteve tão cansada em toda a sua vida. Joga a chave sobre a pequena mesa de vidro da sala. Liga a televisão, porém desliga rapidamente, pois, das seis primeiras propagandas que viu, cinco eram sobre o Carnaval, a Páscoa, o Dia das Mães e agora a Copa do Mundo. Escurece. Ela não sabe onde pôr os olhos. Joga-se no sofá da sala e olha para o teto por alguns instantes. Tenta lembrar do rosto de Armando, fecha bem os dois olhos e fixa, na escuridão, uma linha com a qual tenta reconstruir os traços faciais de seu único amor. Armando não é mais possível, nem na memória.

Fica ali, jogada. Ela e sua respiração leve, quase imperceptível. Pensa em ligar para sua irmã, mas recua imediatamente. Sabe que, se ligar, o rosário de lamentações vai começar. As cobranças de visitas não feitas, o abandono da mãe doente, o motivo pelo qual nunca mais foi à missa como de costume, a internação do irmão que está pra vencer e a mensalidade do sanatório que vem aumentando. Para complicar, o pai ainda permanece no asilo. Os médicos se enganam mesmo. Faz dez anos que sentenciam sua morte e nada. O único amigo que tem, ela sabe muito bem, só quer saber de sexo; então ela só liga quando está decidida a passar umas três horas num motel qualquer.

Levanta, vai ao banheiro. Dá uma olhada no espelho, confere as olheiras, passa a mão pelos cabelos e lembra que tem uma garrafa de uísque no guarda-roupa. Despe-se e entra no chuveiro. Fica ali por meia hora. Neste tempo pensou em mudar de casa, profissão e cidade. Imaginou outras vidas dentro da vida. Quando criança jurava que ia ser professora, mas o salário e as condições de trabalho a jogaram para a engenharia de alimentos. Teve ímpeto de ser aeromoça, de viajar o mundo, de conhecer pessoas e lugares; contudo, a timidez somada ao temor que seus pais tinham por avião abortaram seu intento.

Sai do chuveiro enrolada na toalha. Entra direto no quarto e pega a garrafa de uísque. Joga o pano sobre a cama. Sempre quis fazer isto, jogar a toalha molhada sobre a cama. Sai nua pela casa. Senta-se no sofá, com a varanda do apartamento aberta e a luz acessa. Fica à mostra, sem vergonha alguma. Logo ela, que sempre teve tanto medo da opinião alheia. Percebe que no prédio ao lado há um certo movimento, um certo alvoroço. Estica-se toda até ficar no ponto mais visível e se põe a beber uísque. Fica ali até adormecer por completo sem se preocupar, pela primeira vez, com o mundo externo. Ao acordar, gosta da sensação de ter feito algo que realmente desejava. O dia seguinte foi mais leve que o normal.

 

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