Pássaro, pássara – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 21 de maio de 2014

PÁSSARO / PASSARA

Fui acordado por um pássaro gritão. Ou seria uma pássara? Quando pensei nesse feminino de pássaro, achei que estava inventando uma palavra, pensei em discorrer sobre e fazer uma crônica toda poética sobre as fêmeas pássaras. Prudentemente, resolvo olhar no dicionário e eis que a palavra existe. Lá se foi meu mote cronístico, mas se a vida nos dá limões, façamos uma limonada. De acordo com o dicionário, pássara tem três significados. O primeiro é o mais óbvio que é ser o feminino de pássaro. Porque será que usamos tão pouco? Não é tão raro encontrar diferenças entre os machos e as fêmeas no mundo da ornitologia. A partir de agora, toda vez que eu vir uma fêmea de qualquer ave lhe chamarei de pássara. Darei minha contribuição para a popularização da palavra.

Outro significado da palavra é um regionalismo que vem lá de Pernambuco. Trata-se da fêmea do peru, a perua. O interessante desse sentido para pássara é o motivo: parece que no interior do estado, perua é uma palavra indecorosa, portanto houve a necessidade de se criar um eufemismo, uma saída bem-educada para não ofender as pessoas mais suscetíveis à ofensa. Ou seja, se, de maneira geral, peru é uma palavra de duplo sentido sexual e perua ganhou mais os ares de mulher fútil, lá em Pernambuco, parece que coube a perua tocar no obsceno, sobretudo no obsceno presente naquelas pessoas que esbanjam a casca da moral e dos bons costumes.

E por fim, lá em Portugal pássara é o nome dado, de forma informal, às partes genitais das mulheres. Algo que aqui no Brasil foi para o diminutivo e se tornou “a passarinha”. Enfim, até nisso se manifesta nossa mania de forçar uma intimidade pelo diminutivo, além dessa mania de nomear tais partes do nosso corpo, na tentativa de sempre fugir delas. Ninguém até hoje deu outro nome para o braço, o cotovelo, a barriga, os ombros, mas o pênis e a vagina tem milhares de apelidos. Bom, mas isso é outra crônica. Retornemos à passara.

Na pesquisa, descubro uma bela canção de Chico Buarque com esse título, que se remete a uma mulher que vai e volta e, como é comum em Chico Buarque, mantém o homem preso à sua fêmea liberdade. Da mesma forma que a pássara aqui ao lado é livre para me acordar toda manhã.

Rubens da Cunha

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Uma resposta para “Pássaro, pássara – Crônica de Rubens da Cunha

  • Maurélio Machado

    Muito interessante, não afirmaria até hoje que pássara era uma palavra da língua portuguesa, achava que que só existia pássaro macho e fêmea.
    Os portugueses já inventaram o apelido para a “passarinha”rsrsrs
    Parabéns mestre pelo crônica. Abraços

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