Crônica da Semana, por Marco Vasques

O SORRISO DE JOÃO

 Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [26/05/2014]

Atravessa a Praça XV com as duas mãos na barriga e um pouco de dor nas costas. Não bastasse o inchaço nos pés e todos os quilos que ganhou durante a gravidez, ainda tem que conviver com a cólica infernal. Sente uma leve tontura; os olhos formigam. Ela sabe que faltam três meses para parir, portanto não tem lá muitos motivos para se preocupar. A dor aperta. Pensou em pedir ajuda ao posto policial implantado no meio da praça. Melhor sentar com os velhinhos que jogam dominó, que são sempre mais prestativos que policiais. Pede um pouco de água a um deles e é prontamente atendida. Por que na velhice, pensa, as pessoas ficam mais prestativas? Seria a falta de tempo de vida ou a sobra do tempo que a vida lhes dá?

Mais uma fisgada, e seus pensamentos se concentram na dor. Será o caso de ir ao hospital? Ligar para o marido está fora de cogitação. O pai, único afago que teve na vida, está morto. A mãe mal consegue carregar suas próprias desgraças e doenças. Os irmãos estão todos preocupados demais em seus lares e não falam com ela desde que optou por casar com o bêbado do João.

É bêbado, mas é meu homem. É bêbado, sim; é um bêbado que me ama e me acaricia nas noites escuras. Não se tornou uma bêbada, sempre disse isso aos parentes, por falta de coragem, porque desgraças e motivos para ser mais uma embriagada ela tinha sobrando. Por uns instantes a dor se acalma, a respiração volta ao normal e o clarão dos olhos se abrandam.

No seu íntimo, ela entende as dores do João. No entanto, de uns tempos para cá, ele começou a virar a cabeça em casa também. Nunca foi agressivo com ela. Sempre berrou contra tudo e contra todos. Imensa raiva do mundo, das pessoas. Contudo, com as crianças e com ela nunca uma palavra alta, nunca uma ofensa ou agressão. Agora não. Agora o lar está revolto; os filhos assustados e ela não sabe o que fazer. No meio da dor, tenta articular uma estratégia para trazer João ao que sempre foi. Bêbado sim, mas honesto, trabalhador e, para espanto de quase todo o mundo, muito amoroso. O que fazer?

A dor apascenta e o corpo recobra a energia necessária para voltar a caminhar. Agradece ao velhinho que a socorreu com a água. Atravessa toda a Praça XV escurecida pela manhã cinzenta, ladeia o Largo da Alfândega provocando os pombos e atravessa o Mercado Público até chegar ao terminal urbano. O ônibus está lotado. Consegue sentar com alguma dificuldade. Recoloca as mãos na barriga imensa e fecha os olhos. No escuro que provoca, uma única preocupação a consome. Que poderá ela fazer para recuperar o sorriso bêbado e alegre do seu amado João?

 

 

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