A censura nossa de cada dia – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 28/05/2014

 

A censura nossa de cada dia

Borges dizia que a censura é a mãe da metáfora. Trata-se de uma imagem que nos leva a outras, como as vindas de Tom Zé, que na letra “Sem saia, sem cera, censura” conseguiu metaforizar o quanto a censura é uma mãe não muito boa: “É a rima, a rima ditada por lei, por decreto / É a múmia que mama no feto / É a luz que se filtra nas grutas / O insosso temperando as frutas.” Essa luz que se filtra nas grutas, esse insosso temperando as frutas está tão arraigado à humanidade, que lhe é impossível imaginar uma origem, um começo. A censura, em seus diversos graus, sempre existiu, como sempre existiram as mães e as metáforas. A censura sempre foi tributária da arte. Só se censura aquilo que pode incomodar, pode mexer com os domínios, com as opressões. A censura tem um tipo de amor, de estranho amor que ameaça, esconde, destrói para proteger. Voltaire dizia que “a censura é muito boa, em geral, para manter num povo os preconceitos úteis àqueles que governam.” Assim, a censura tanto serve para manter as pessoas presas a seus lugares comuns em relação aos artistas e, sobretudo, em relação aos críticos. É uma relação desigual, pois a censura, normalmente, é amigada com o poder e, hoje, o poder é um fantasma, uma despersonalização completa: o mercado, o lobby, o jogo político, o dinheiro. Coisas tomaram lugar das pessoas e conseguem com isso, censurar de forma outra, para além do que prenuncia a letra de Tom Zé. Para o compositor “o medo, o medo tem que censurar para criar / a parceria da pedra com a vidraça, / do elefante com a graça, com a taça, / a parceria da bala de canhão, canhão, canhão / com a bolinha de sabão.”, ou seja, é visível o lado sólido da opressão, é visível seu peso sobre a arte, os artistas, ou qualquer um que caminhe por um pensamento mais livre, mais inquieto. No entanto, quando a censura é um fantasma, é uma sombra perambulando os buracos do poder, do jogo econômico e político, decididamente fica muito mais difícil de combatê-la. Combater essa censura é um trabalho ainda mais árduo do que aquele enfrentado pelos que a combateram sob o regime ditatorial. Um trabalho diuturno, que requer firmeza ética em tempos de liquidez, em tempos cada vez mais volúveis e hipócritas.

Rubens da Cunha

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