Crônica da Semana, por Marco Vasques

NOTÍCIAS DE BUNDÓPOLIS

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [02/06/2014]

 Dona Lindomar liga a televisão pela manhã e a primeira notícia que recebe é que policiais assassinaram mais um jovem rendido. Pessoas do bairro filmaram a ação e a divulgaram. As imagens não deixam dúvidas. O rapaz tentou fugir. Houve perseguição. No entanto, encurralado, ele se rende e levanta as duas mãos, sinalizando que desistiu da contenda. Já dominado, foi fuzilado com oito tiros por dois policiais. Não interessa se ele tinha passagem pela polícia, se estava portando drogas, pensa a velhinha nos altos dos seus setenta e nove anos.

O que importa é que ele estava apaziguado e o papel da polícia era prendê-lo sem violência e depois submetê-lo ao julgamento legal inerente aos atos ilegais supostamente praticados. Teria, caso ainda estivesse vivo, que ser julgado e receber do sistema carcerário tratamento adequado, para ser reconduzido à coletividade. Como de costume, vai ser enterrado e um processo será aberto e arquivado. Era negro, pobre, morava no morro. Gente sem importância que cederá lugar no próximo noticiário a mais um Zé Ninguém que também será esquecido.

Irritada, Dona Lindomar desliga a televisão e resolve visitar os netos e sobrinhos no Córrego Grande. A idade é avançada, o passo lento, mas ela ainda suporta uma boa caminhada. Contudo, prevendo a saga que enfrentaria com carros estacionados na calçada, gente que não dá a preferência na faixa de pedestre e outras chatices, liga para o Manoel Osório, que sempre se mostrou solícito e é, ainda por cima, um rapaz com alguma ideia na cabeça. O vizinho cedeu ao pedido de carona, e, como de hábito, levou-a à casa dos parentes.

Já na sua cadeira favorita e rodeada pela prole, ela percebe que o debate entre eles é fervoroso.  Tudo girava em torno das novas notícias de Bundópolis. Um defendia a reforma do Mercado Público e a regularização legal da área. Outro, radicalmente contrário, vociferava indignado, porque o Bar do Alvim seria fechado. O bisneto mais jovem só queria saber se vai ou não vai sair o teleférico, que esse ele não perderá por nada. Comprará o primeiro bilhete, não importa o destino. No lado esquerdo da cozinha, alguém não para de falar da duplicação da rua Deputado Antônio Edu Vieira. A neta primogênita só quer saber onde irão parar as peixarias do Mercado, porque a tainha está aí. Tudo parecia tranquilo, apesar das discordâncias e argumentações firmes. Dona Lindomar se sentiu satisfeita por ver a democracia em pleno exercício. Quando não mais definia quem defendia qual ideia, abraçou Manoel Osório, que tudo via e ouvia sem comentar, e o levou para tomar uma taça de vinho.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: