Crônica da Semana, por Marco Vasques

CAIXA RÁPIDO, SÓ QUE LENTÍSSIMO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [09/06/2014]

Dona Lindomar nunca se intitulou uma intelectual. Aliás, sempre abominou essa atitude petulante dos viventes de Bundópolis. Por estas plagas não tem jeito. O cara é convidado para uma fala, uma palestra ou para dar um palpite sobre algo, e já vai logo se dizendo intelectual, embora tudo o que venha depois comprove justamente o contrário. Apesar de ter lido mais livros que muitos escritores, ela sempre preferiu se manifestar discretamente. Mas no Córrego Grande acontece de tudo, e a velhinha não tem paciência de tartaruga e muito menos miolo mole.

É que no Supermercado Imperatriz, por exemplo, ela não se cansa de se confrontar com a idiotice. A última, ela não teve como ficar calada e esbravejou para todo o mundo ouvir. Dona Lindomar tem o antigo hábito de comprar os jornais todos os dias. Na segunda-feira passada, comprou os periódicos e, como estava com presa e a fila preferencial estava cheia de adolescentes, resolveu ir para a fila do caixa rápido. E lá ficou empacada.

Ocorre que a garota que opera o caixa que deveria ser rápido não dispõe de troco para dez reais. Sim, aqui no Imperatriz do Córrego Grande sempre acontece isso. Abrem um caixa rápido que não tem troco para míseros dez reais. E não precisa ser nenhum matemático, intelectual ou cientista para perceber, por obviedade, que o que era para ser um caixa rápido, torna-se um caixa lentíssimo.

Dona Lindomar já falou com o gerente, que em vez de ouvir a velhinha, escutar seus conselhos, foi logo perguntando por que ela não troca de supermercado; se ali é tão ruim, porque ela não muda. Irritada, e mais uma vez por obviedade, ela diz que mora próximo ao mercado e que a lógica do gerente está equivocada. Se eu não gosto da minha cidade, tenho que lutar para melhorar e passar a gostar. Se o supermercado de meu bairro não funciona, não preciso ir a outro; tenho que fazer algo para que ele se torne melhor e atenda melhor as pessoas.

Enfim, a velhinha, que não é nenhuma intelectual, deu uma saraivada de argumentos até provar que essa coisa de “não está contente, vá para outro lugar” é fascista e alimenta a ausência de transformação das coisas. O gerente, do alto da ingerência completa, desqualificou mais uma vez Dona Lindomar. Ela, naturalmente, ficou pensando se o dono de uma rede de supermercados como o Imperatriz sabe da inoperância e da lerdeza no funcionamento de seu empreendimento. Porque convenhamos, abrir um caixa rápido que nunca tem troco para dez reais é mais um feito incrível do povo de Bundópolis. Quando pode, a velhinha evita o Imperatriz e vai ao minimercado Ana Paula, onde pode até comprar fiado!

 

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