Exercício de invenção – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 11/06/2014

Em tempos de poucos acontecimentos pessoais, ou de pouco acontecimentos que mereçam um olhar mais calmo e uma tentativa de cronicar sobre, escrever se torna cada vez mais invenção, cada vez mais fluxo pela busca de algo. Claro, diante disso o cronista esbarra mais uma vez na metalinguagem, nesse monótono falar sobre falta de assunto, não ter o que escrever, permanecendo num rame-rame inócuo. Sigo nisso porque sou frágil, que história eu poderia inventar? Poderia optar pelo lado escuro e obscuro da vida e falar de zeladores mortos, dos linchamentos de inocentes, poderia falar da onda de psicopatia que infesta as manchetes nos últimos tempos. Não, melhor seria falar dos descalabros políticos, da falta de ética dessa gente amigada com o poder. Poderia falar das greves ambíguas: se por um lado são justas e necessárias, por outro, estão servindo apenas como moeda de troca. Isso também não daria um bom assunto. Falar da copa? Falar das eleições? Trazer à baila alguma história edificante de quem perdeu tudo nas enchentes ocorridas essa semana. Inventar algum texto que solarize ou que perturbe as pessoas? Escrever uma crônica que tente fazer a diferença ou que seja apenas mais um texto para cumprir tabela, como aqueles times que já estão rebaixados mas tem que se enfrentar na última rodada do campeonato? Poderia vasculhar manchetes, livros, citações, poderia trazer alguma memória de infância, poderia até inventar uma memória afetiva, uma memória da pele, como diria aquela canção de João Bosco. Poderia sair correndo, desistir, colar trechos alheios, poderia apagar tudo isso e começar de novo em respeito aos leitores. Sim, eu poderia exercer meu ofício de forma mais responsável, de forma mais interessante até para mim mesmo. No entanto, quando se está em calmaria, quando se está naquele momento em que os ventos não acontecem e o veleiro não anda, é tempo apenas de elucubrar, de fazer com que pelo menos não se perca a chama, mesmo que ela já não esteja iluminando muito bem. É tempo de esperar que algo aconteça, que a crônica nasça, como já nasceu tantas vezes, do acaso, do repentino olhar que acontece sem espera, sem procura, sem desejo. Enquanto esse olhar não acontece, sigo inventando saídas outras.

Rubens da Cunha

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Uma resposta para “Exercício de invenção – Crônica de Rubens da Cunha

  • Maurélio Machado

    Esplêndido Mestre Rubens, especialmente”quando se está em calmaria, quando se está naquele momento em que os ventos não acontecem e o veleiro não anda, é tempo apenas de elucubrar, de fazer com que pelo menos não se perca a chama, mesmo que ela já não esteja iluminando muito bem.” Parabéns, mais uma crônica maravilhosa inserida na Revista Osiris Literatura, abraços

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