Crônica da Semana, por Marco Vasques

CONSIDERAÇÕES SOBRE A COVARDIA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [16/06/2014]

1 – A covardia é a arma dos incapazes de um grão de inteligência.

2 – A covardia nunca é praticada na solidão, porque quem conhece o silêncio de si não se associa ao ruído estridente das vozes covardes. Elas precisam, sempre, dos iguais para esconder as vergonhas em outro espelho!

3 – A potência de ação de um covarde, se isolado, é nula! Um ser covarde tem o espírito tecido pelo medo; por isso a ausência da coragem na ação solitária. Um bom covarde, o que equivale a dizer um péssimo homem, faz com que os outros provoquem as danações desejadas.

4 – A covardia é corroída pelo desejo de poder. Um covarde precisa ampliar os braços sobre seus servos; precisa lembrar que eles estão afagados pela corrente de seus olhos. Um covarde sem poder é o rosto do suicídio.

5 – A estupidez é outra característica do covarde. Por isso ele age no silêncio. Não mostra o rosto sem ter a vitória para si. Essa latência se dá pelo medo que o covarde tem de enfrentar seu oponente. Um covarde é um estúpido seguido por asseclas que o odeiam, mas o seguem por necessidades estúpidas!

6 – O registro de um covarde é o registro da prisão, do poder, da hipocrisia. Um covarde se identifica, em primeiro beijo, com aquilo que ele nunca imaginou, porque seu espírito é despovoado de nuvens imaginativas. O corpo de um covarde é um terreno em que a habitação se dá por usucapião, sem que nada se tencione.

7 – Um covarde age como se a morte nunca chegasse. Porque ele tem muito medo da vida viva. Nesse ponto, o covarde está em pleno acordo com o seu horizonte diminuto; não deve mesmo temer a morte, pois já está morto!

8 – A covardia é fruto de uma dormência coletiva dos sentidos. Sem carne ferida, não há impulso contrário. Infiltra-se no coletivo uma dormência letal e se faz com que o espírito humano abomine os abismos e não tenha fronteiras de fraturas. Por isso o pensamento-carne, o pensamento-força é abafado pela casca de toda indiferença programada.

9 – O espírito covarde tem medo da noite, da sombra e de toda ausência de luz, porque jamais se debate sem a frieza do aço ou sem a firmeza ignominiosa da espada e do ataque. O espírito covarde é dominado por uma maníaca clareza asséptica. Ele ignora os borrões de noite que são expulsos de sua frente. Os abismos da noite, tal qual Goya compreendeu, são relâmpagos que o espírito covarde é incapaz de tocar. Mesmo que ele tenha nome de rei ou rainha, que toque flauta ou pandeiro, que faça um filme qualquer e protocole cartaz para robôs. A arte contaminada pela covardia é o produto dessa incompreensão inescrupulosa a qual está preso o espírito covarde.

 

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