Anotações em tempos de copa – Crônica de Rubens da Cunha

Anotações em tempos de copa

Lá fora as nações se enfrentam nos jogos da copa do mundo. Aqui dentro, a solidão e o inverno reafirmam seus passos e pesos, suas pegadas e pressas em mim, um poeta que não gosta de futebol, de inverno e de solidão.

A presidente foi vaiada e xingada na abertura da copa do mundo. Seus opositores tornaram-na uma vítima, quase uma mártir injustiçada. É o velho tiro que sai pela culatra e que sairá sempre, enquanto a oposição não tiver um projeto político efetivamente sério.

No futebol há uma tendência a se torcer para o mais fraco. A bola da vez foi a Costa Rica. Olho os comentários, as alegrias frente a vitória dos frágeis e penso por que na vida, fora do campo, nem sempre é assim? Por que se contesta tanto alguns avanços, algumas lutas, algumas vitórias de quem sempre foi marginalizado?

A minha pouca paciência para jogos de futebol só não é maior para a minha nada paciência para os comentaristas. Como é que se consegue um emprego, se ganha um salário excelente para só dizer o óbvio? Seria sorte, destino, contatos? Na verdade a minha impaciência é filha dileta da minha inveja dos comentaristas de futebol. Sim, eu os invejo porque eles conhecem só o óbvio e a obviedade, assim como a ignorância, é uma bênção.

Vai ter copa. Não vai ter copa. Essas eram afirmativas de antes, agora a afirmativa é “está tendo copa” e não foi aquele caos previsto. Pelo menos nesses primeiros dias. O que resta são pequenos caos pitorescos: alguns jogadores croatas pelados no hotel. Um torcedor inglês pelado na arquibancada, achando que por aqui isso é normal. E a vida do brasileiro segue no improviso e rezando sempre no altar de Nossa Senhora da Procrastinação.

Milhares de latino-americanos estão espalhados pelo Brasil, acompanhando as suas seleções. É um momento de união, de contato entre as línguas, que se fundem nesse nosso esperanto particular: o portunhol. Es lindo falar asi, tudo cambiado, todo misturado.

Ainda temos quase um mês pela frente. Para muitos é espera e fé de que haja vitória do Brasil. Para outros muitos a vitória já está comprada e nada afetará o negócio. E uma minoria, incluso este poeta, está vivendo feliz na terra do tanto faz.

Rubens da Cunha

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