Crônica da Semana, por Marco Vasques

CONSIDERAÇÕES SOBRE A TIRANIA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [23/06/2014]

1 – O tirano não tem amigo, tem subalterno. Compra o silêncio das pessoas. Se não gosta da sombra, não é pelo mesmo motivo que o do covarde; é porque vê fantasma em tudo o que se movimenta. Ao contrário do que se possa pensar, um tirano nem sempre é de fácil identificação, pois faz o exercício da tirania e do terror sem sujar as mãos. No íntimo, vive atormentado, mas em público tem sorriso e mel na face. Todo ato de violência é feito com a presença de olhos tiranos; eles sempre estão nas coxias e nos urdimentos, nunca no procênio.

2 – A tirania é exercida entre gravatas e saias. Um tirano é um cooptador de covardes ineptos para a ação. Quanto mais pusilânime e sem espírito, quanto mais fisiológico-familiar, mais o tirano exerce sua força. Um tirano trata sua gleba de gente como familiares que precisam de amparo para ampliar seu raio de ação. A pobreza dessa família-fisiologizada está em não perceber que na primeira crise, no primeiro conflito, na primeira hora de desespero, o espírito tirano atira sua gente aos leões e sai de cena. Geralmente se esconde por trás dos mecanismos invisíveis de uma burocracia labiríntica.

3 – Um tirano sem poder não passa de um rato pestilento.Por isso ele se esconde tanto.

4 – A tirania tem um exercício tão autômato e, às vezes, um modelo de operação tão sutil, porque se utiliza do aparato burocrático que ela própria instituiu — segundo ela legalmente — para dar ares de legalidade a si mesma. Foucault já percebeu, por exemplo, que o aparato judicial está a serviço da burocracia e não da vida fora dos esquemas legais. É que a tirania possui este rosto difuso, camaleônico, sempre disfarçado sob a palidez do discurso democrático.

5 – A pérfida tirania do cotidiano ainda precisa pensar dentro do sistema panóptico, porque ela só enxerga o que está ante seu controle. O mundo extraterritorial, com sua tirania à distância e oculta (guerras entre duas nações, provocadas por dispositivos eletrônicos ou em gabinetes insuspeitos, por exemplo) alcançou um grau de tirania ainda incompreensível para o pequeno tirano, que vive empoleirado no seu falso poder.

6 – O pequeno tirano só possui o olhar panóptico.

7 – O espírito tirânico possui um poder incrível de transformar sua ficção em mundo real e palpável. Afinal, tanto para ele quanto para o ser afetado pela sua tirania, o acontecimento é real. Por mais que esteja circunscrito pela invenção de seu cérebro infectado de devaneios e de injustiças, um ser tirano é capaz de fazer uma invenção se transformar em realidades atrozes.

8 – O tirano tem o rabo mais preso que gato de porcelana.

 

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