Metáforas e metamorfoses – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 25/06/2014

Sonhamos retornos que se reiteram, que se refazem sempre por dentro, como se fossem cobras, melhor, lagartas: dessas que antes são nojo e depois são asas. Metamorfose mesmo, que precisa ser assimilada em cada um de nós. Se faz necessário um tempo de metamorfose, nem que seja aquela que um certo Sr. K nos impôs, nem que seja a metamorfose que nos revelará quem somos e com quem estamos. Sonhamos também pontes, pedaços de concreto sobre o vazio. Mais que metamorfose, metáfora para a vida, ligação entre passado e futuro, esses tempos inventados para que possamos nos aguentar presentes. Somos e estamos agora, no entanto damos à memória espaço de sobra para nos atormentar ou nos amaciar nos cantos, e damos à esperança densidade demais. Memória e esperança congregam em nosso corpo, como se fossem freiras carmelitas descalças, mas também como se fossem arquiduquesas medievais. Esperança e memória, metáfora e metamorfose. Transformação sempre vindoura e acúmulo de coisas acontecidas. Somos e estamos agora, mas feitos pontes, ligados a esses dois tempos imorredouros, a essas duas trampas que nos fazem vivos. Talvez fosse necessário outros cuidados, outros apontamentos de auto-misericórdia, talvez não devêssemos nos estabelecer tanto no passado ou no futuro, mas isso é discurso dos que vendem livros e soluções. Aqui, nesse vão que chamamos presente, somos apenas uma ponte, um ponto entre outros e seguimos sendo, enrolando, peleando, como se fôssemos também um gerúndio. Sonhamos melhoras que aprimoram não tanto o viver, mas o próprio sonhar, esse ato natural de quem dorme e ato nada falho de quem o faz acordado. No fim, tudo se reacende na mesma ideia de estar vivo, a todo custo, como se fosse um capital investido. Não temos muito tempo frente ao desgaste do corpo, frente a metamorfose que nos acontecerá na morte. No entanto, é esse não saber, essa aposta no escuro ou nas luzes de um outro lado que nos divide entre culpas, esperanças, memórias, desejos e repreensões. Somos o que somos e cada um porta o mistério e a transparência necessárias para darmos conta das metáforas e das metamorfoses. Seguimos sonhando retornos e avanços. Seguimos, pois mesmo parecendo pontes somos também o rio. Aquele que nunca é o mesmo.

Rubens da Cunha

Rubens da Cunha

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