Crônica da Semana, por Marco Vasques

CONSIDERAÇÕES SOBRE O MEDO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [30/06/2014]

1 – O medo é o motor dos covardes e dos tiranos. O poder, a religião, a guerra e a canalhice, por exemplo, subsistem porque o medo é a moeda de ouro que institui a vilania da fraqueza-soberana sobre o homem fragilizado e dependente. Este último tem força no silêncio, mas no tumulto se ajoelha por necessidade. Quanto mais frágil e temeroso for o subalterno, mais se amplia a ira. Para acabar com a cultura do medo é preciso que existam homens que tenham coragem de passar fome, de dizer não e de renunciar à lógica de valor do medo. Por isso, o enfrentamento não pode ser com a indiferença. Faz-se necessário, como no xadrez, armar um esquema que coloque a fraqueza-soberana de quem aterroriza o outro na soberana fraqueza de seus atos. Só um espírito dominado pelo terror e pelo medo tem a aviltante tarefa de gerenciar pela força, porque ele não impõe o medo; ele é a face mais clara da temerosidade. Faz-se necessário encontrar um novo espírito que seja capaz de descer à animalidade para destronar o animal que controla a máquina do medo.

2 – Todo censor é guiado pela força do medo. Incapaz de uma ação de confronto, ele se protege no exercício da censura. Sempre despacha por terceiros. Não importa se o medo provém de algo do cotidiano, da vida concreta ou do real imaginário. O medo involuntário, animal, isto é, o medo original, não é necessariamente um problema a se combater. É provável que certa dose dele tenha permitido ao homem chegar até a “civilidade”. O que deve estar na arena é a luta para que o controle do medo, justamente por aqueles que têm medo do próprio ato de ter medo, não sirva para ampliar o domínio pela força, pela covardia e pela tirania.

3 – Um espírito contaminado pela força do ódio é capaz de forjar a si mesmo e se ver como o espírito do bem, de se pensar como um espírito salvador que, por meio do ódio, fantasia pedaços de doçuras. Por isso, adula tudo o que está acima de si e costuma esmagar tudo o que está abaixo da sua cintura ou da sua saia. Ele faz com que seus superiores vejam sua ira como ato libertador em tons melífluos. O que é certo é que o espírito contaminado pelo ódio é incapaz do exercício erótico. É incapaz de enfrentar Eros, porque, se se desnuda, só consegue enxergar as mil cascas de terror tatuadas na retina e na pele. O medo é um motor muito útil à força do ódio, que costuma emanar de indivíduos apavorados.

4 – O medo é uma arma poderosa. A manipulação dele é capaz de apequenar o espírito inovador e arruinar o fervor de comunidades inteiras. Uma sociedade erigida a partir do medo vive amasiada com o terror.

 

 

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