A melancolia – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 02/07/2014

O que seria essa melancolia que ele carrega desde sempre? Um luto ancestre, contínuo e continuado pelos cantos. Tristeza entranhada como um trava-línguas. Ou como um trevo de quatro folhas de plástico feito na China. Trata-se de uma artificialidade? Uma feitura e feiura que se esboroa dia a dia, mas que nunca acaba, como aquelas pequenas erosões nos morros desmatados. Talvez um dia venha tudo abaixo, talvez tudo continue sendo apenas ilusão, sendo apenas o vício de ser melancólico, de ser um dândi em tempo errado, tempo de selfies, de vaidade que se fotografa, tempo outro, nem melhor nem pior, apenas outro, como são outros todas as pessoas, todos os animais e coisas no mundo. A melancolia viria desse seu sempre desencaixar, como se ele fosse um pendrive que, segundo dizem os piadistas, tem três lados para se colocar na entrada usb: o primeiro, o segundo e o certo. Talvez não seja nem o desencaixar que lhe martele a vida, mas o nunca encaixar-se de primeira, talvez a melancolia venha desse contínuo tentar. Tentar, outra palavra dúbia, por um lado pressupõe tentativa erro e acerto, por outro é também tentação, pecado, lançar-se ao pecado, melhor, fazer o outro dar-se ao pecado. Por certo esse conceito de pecado é bastante religioso e vem incomodando a vida das pessoas há séculos, mas não é o que lhe melancoliza, pois foi tão lado de fora, ou outsider para dizer palavra cheia de poesia, que pouco se incomodou com o após a morte. A melancolia é agora, é na carne diária, na pele ressecada, nos olhos sem lágrimas. Ele tem delírios de grandeza, arvora-se amplo e vasto, mas é sempre isso: uma conjunção adversativa, é sempre a ideia de contraste, de que há um porém-contudo-todavia sendo sempre adversário para a sua vida. A melancolia lhe é intrínseca, mas não é suficientemente forte para que lhe tome toda a existência, é mais como se fosse um poço, às vezes enche noutras fica mais seco, mas sempre verte alguma coisa, talvez não incomode a quem passa por ele, talvez o vejam como uma excentricidade, dessas perdoáveis, dessas que se compram nas lojas de souvenir, quando se viaja a lugares distantes, mas que são sempre feitas na China.

Rubens da Cunha

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