Crônica da Semana, por Marco Vasques

DEPOIS DO DIA DOS NAMORADOS

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [07/07/2014]

Ele entra na loja com nítido cansaço. Ofega. Capacete da motocicleta na mão esquerda. As unhas sujas. As roupas revelam um jovem simples e que trabalha na construção civil. Um operário à moda antiga em um mundo que insiste em se dizer sempre novo. Em poucos minutos outra propaganda joga o que era novo ao esquecimento e assim vamos colecionando velharias que acabaram de sair do forno. Ele se aproxima da atendente. Fala baixo, um falar de homem envergonhado, de quem parece estar desconfortável com o contraste entre suas roupas sujas e assepsia da loja.

Olha fixo para moça à sua frente e pede ajuda. Relata que quer dar um presente para sua namorada, que a ama muito e que ouviu, em um momento de carinho, ela dizer que sonhava com um homem delicado, com um homem sensível que entendesse um pouco de seu mundo confuso, instável, cheio de desejos e sutilezas. Ele, a imagem da beleza suprema, desabafa para a atendente que deseja ser um homem assim, que não sabe direito o que fazer para que possa ser este homem. Pergunta a ela que tipo de presente um homem desta natureza dá a uma mulher.

O rosto da atendente parece não acreditar no que está ouvindo. Ela fica parada por um minuto, gagueja, os olhos se embaralham. Ela se recompõe e começa a mostrar uns bichinhos ternos, uns travesseiros com frases de Florbela Espanca, umas xícaras com rosto de James Dean. Passeia com ele pela loja até que ele pergunta: mas moça, afinal, seu marido é um homem sensível? Espantada ela disfarça, tenta retomar a conversa mostrando uns brincos personalizados. Após alguns minutos opta por uma almofada com dois corações e sai da loja cheio de dúvidas, mas com a esperança de atingir o coração da sua amada.

A atendente, que nunca havia pensando na questão, passa parte do dia se perguntando quais atributos podem ser dado a um homem sensível e ficou procurando, nas ações do marido, uma que explicasse algo, porque o moço que ela  acabou de atender a perturbou com a sua busca. Ela agora era um ponto de interrogação. Na verdade, aquele motociclista, provavelmente um homem simples e enrijecido pelo dia-a-dia de intenso trabalho, ao se perguntar, ao indagar sobre sua subjetividade, sobretudo ao pensar como alcançar a parte intangível da vida de sua namorada, abriu todos os poros de seu mundo sensível. E entre o carregar de pedras, fazer concreto, erguer paredes, isto é, entre as durezas diárias, a maior de sua preocupação é tocar sua mulher com todo o seu desejo, mas sempre pensando nos desejos dela. Ser sensível talvez seja desejar o desejo do outro amalgamado ao nosso desejo.

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Uma resposta para “Crônica da Semana, por Marco Vasques

  • Justina Sponchiado

    Procurar notar o que vai pela cabeça e pelo sentimento de um homem que teria razões para ser rude, mas cultiva a sensibilidade de auscultar o desejo da amada e procurar ser melhor para mobilizar seu desejo. Muito delicado!

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