Crônica da Semana, por Marco Vasques

DONA LINDOMAR E A PARTILHA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [14/07/2014]

 

Dona Lindomar anda bastante incomodada com os seus netos e filhos.  Sabe que a vida será breve e que já viveu praticamente todas as experiências desejadas. Tem conhecimento, como ninguém, de que a idade não permite sonhos longos e de que o corpo já reclama pelo descanso eterno. Fez o que pôde para sustentar a prole. É certo que eles viveram sem luxo, mas educação e saúde sempre tiveram. Alimentação nem se fala, que antes a tainha era abundante e a mesa sempre esteve farta. Sempre foi zelosa com todos.

Dona Lindomar é do tempo em que, no Córrego Grande, se trocava uma boa gleba de terra por um saco de farinha e uma vaca leiteira. Ela mesma, ao lado de seu marido, o Marlindo, chegou a vender e a comprar muitos terrenos por preço de banana, literalmente. A velhinha nunca teve vocação para miolo mole e reservou, para o futuro dos netos e dos filhos, um bom pedaço de chão. Esta semana, já percebendo que os dias não lhe estão sendo favoráveis, resolveu fazer uma reunião em família para distribuir, ainda em vida, o que restou de seu espólio.

Como ela supunha, o sistema imobiliário tomou conta da cidade, e qualquer metro quadrado de terra custa mais de trinta anos de trabalho. Uma casa, que não deveria passar de uma conquista simples, porque se trata da necessidade primeira de qualquer ser humano, se tornou o sonho da vida inteira de uma pessoa. Não raro acontece de o cara trabalhar uma vida toda, como ocorreu com Marcelino e, ao terminar de pagar a casa, sucumbir à morte. O fato é que está tudo o olho da cara e viver já é mais que perigoso. Passou a ser dificultoso.

Pensando nisso, Dona Lindomar reuniu a turma. Com lápis e papel nas mãos, fez toda a árvore genealógica e concluiu que dividiria a sua terra em vinte terrenos de iguais tamanhos. Doaria um terreno para cada um dos seis filhos e um para cada um dos doze netos. A galera foi rápida. Logo se estabeleceu uma discussão sobre quem ficaria com o lote de esquina. Ninguém queria o terreno final, porque era muito acidentado e daria muito trabalho e custo para se construir algo. A filha mais velha reivindicou o direito de escolher primeiro e se estabeleceu a esperada discussão. Briga daqui, briga dali. Em pouco tempo se criou uma nova Faixa de Gaza.

Já triste e arrependida da ideia, olhou tudo aquilo com desprezo imenso. Ela pensa baixinho que o berreiro maior ainda está por acontecer, pois reservou dois terrenos, sem destinação precisa, para o caso de uma emergência médica. Já com um peso de morte nas costas, a velhinha sai da balbúrdia desolada, pensando em tomar um porre com o Nelo, um dos bêbados do bairro, na esquina mais próxima de sua casa.

 

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