Família novela das sete – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 16 de Julho de 2014

 

Apesar da copa, as festas juninas aconteceram Brasil a fora. É uma festa que também serve para reunir as famílias, não foram poucas as que aconteceram por aí. A parte materna da minha família é um pouco mais numerosa e festeira. Minha mãe ainda é uma remanescente daquele tipo de família grande, com seus oito irmãos e irmãs, que se desdobraram em primos, primas, genros, noras, netos, a maioria mora próximo e mantém contato constante. No último final de semana, reuniram-se muitos deles para fazer uma festa junina, que já está se tornando uma tradição. Vendo toda essa gente junta percebi mais uma vez que tenho uma família barulhenta, divertida e alegre. Trata-se de uma família bem novela das sete, sem um grande drama traumatizante, um racha, uma ruptura cuja mágoa guardada atravesse as gerações. O que posso dizer é que o núcleo cômico é grande, falam alto, ironizam os recém-chegados, lembram constantemente dos micos passados, e riem, riem todos das pequenas e breves bobagens que cometemos e que não são esquecidas. Há o núcleo daqueles que fazem vir à tona a emoção, não pela dor, pela traição ou perda, mas pela candura e pela humanidade de sua luta diária: a prima que queria ter filhos e agora tem três, o primeiro conseguido pelos tratamentos da ciência e os outros vindos pelo tratamento da natureza, a outra prima que anda numa cadeira-de-rodas motorisada, ou a tia que tem que lidar com o marido que tem problemas com álcool. Há também o núcleo jovem, o primo que chegou tarde porque foi ao cinema com a namorada recém apresentada que, obviamente, passou pelo crivo do núcleo irônico. O outro que cumpre às vezes de galã mas quer ser astrofísico. A outra que desfila com seus cílios perfeitos pela festa. Entre todos há o núcleo dos que são mais saudosistas, ficam lembrando de suas infâncias, dos mais quietos e tímidos, os divorciados, os que estão casados há décadas, os com filhos, os sem filhos, os mais abertos, os mais conservadores. E eu estava lá, no meio deles, olhando-os numa noite festiva e imaginando que papel me caberia nessa novela das sete que é minha família. Resolvo então exercer o papel que melhor me cabe: o de cronista.

Rubens da Cunha

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