Crônica da Semana, por Marco Vasques

FOREVER YOUNG

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [21/07/2014]

É final de tarde na Praça XV. A Catedral Metropolitana contempla, firme, centenas de passos apressados. Na correria toda, tem gente louca para chegar em casa, tem quem vá direto ao boteco do bairro tomar umas com os amigos, tem quem está atrasado para o compromisso com o namorado, tem quem vá ao culto cuidar da alma, enfim, os compromissos são tantos e tão diferentes, que as pessoas, apressadas, quase se esbarram e se atropelam na pressa do dia. Alguns desocupados, em sua grande maioria velhinhos aposentados, estão sentados, serenamente, jogando cartas ou dominó, com a calma de quem já entendeu que a vida merece pausa para ser vivida.

Os carros se acumulam na habitual impaciência humana. Buzinas se misturam ao anoitecer. Aqui e ali alguns colecionadores de andrajos exercitam seu poder de convencimento; afinal, é preciso arrumar alguma cachaça para passar mais uma noite na rua. A cidade, inerte, ganha uma atmosfera sombria. Anoitece lentamente e as imagens se acumulam. No tumulto visual, surge, andando de um lado para o outro, um senhor. Ele parece não ter horizontes para o corpo. Anda de cabeça baixa. Os cabelos e as roupas denotam que faz dias que não toma banho. Magérrimo. Atravessa a praça sem parar.

Ele carrega, na mão esquerda, uma bolsa preta. Dentro dela, um rádio ligado. Todos vivem suas urgências. Ele não; ele anda de um lado para o outro com o rádio ligado sempre na mesma música. A letra é Forever Young. O homem parece estar fazendo uma intervenção. Parece estar gritando. A música se repete. Ele é uma paisagem estranha no lusco-fusco de uma tarde de terça-feira. A voz salta do rádio “e a música é tocada por loucos […] é difícil ficar velho sem um propósito/não quero ser sacrificado como um cavalo inútil […] tantas aventuras não aconteceram hoje […] para sempre jovem, eu quer ser para sempre jovem”.

As frases vão se aproximando e se afastando com o movimento de ida e volta daquele homem. As pessoas não o observam, porque ele não faz nenhuma graça, nenhum movimento brusco. Ele não se exibe. Parece fazer questão de escorregar por entre a multidão com a sua bolsa preta monomusical em tom baixo, mas audível. Ele dá umas quatro voltas em torno da Praça XV. Depois entra na Fernando Machado, sempre cabisbaixo. Parece conhecer cada canto da cidade. Aos poucos se esvai na escuridão com sua música. A indiferença dos passantes em relação àquela figura poética e estranha não espanta. Espanta, e muito, o tamanho da solidão que aquele homem carrega no corpo e em sua bolsa. Realmente, a música e a poesia só podem ser tocadas por homens loucos de juventude.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: