Quase nada a dizer

Crônica publicada em 23/07/2014

 

Quase nada a dizer. Mais uma vez ele chegou em casa e viu tudo vazio. Os móveis estavam lá, a pia, a geladeira, a louça suja, o computador. As coisas estavam lá. Pessoas também estavam: a mulher, que chegava do trabalho sempre antes dele, os filhos pequenos que acabaram de chegar da escola. Quase nada a dizer. Armou-se mais uma vez de coragem e sorriso e anunciou a sua chegada. Não que fizesse muita diferença na vida das coisas e das pessoas. Quer dizer, achava que não fazia. O filho mais novo lhe sorriu enquanto jogava video-game, até lhe chamou para jogar junto. O mais velho lhe perguntou se ele queria alguma coisa da cozinha. A mulher lhe beijou distraída. Havia algum relampejo de amor nesse teatro familiar todo? Quase nada a dizer. Ele escondia-se na casca de homem de família, de exemplo a ser seguido. Era um disfarce que carregava sempre. Durante muito tempo quis que esse cenário todo lhe fosse bom, quis ser como todos os seus amigos, parentes, conhecidos: respeitáveis senhores casados. Será que não haveria entre eles algum igual? Algum que também se disfarçasse na casca e que fosse oco, vazio, mentiroso e que também não tivesse quase nada a dizer? É noite lá fora, a casa bem iluminada fecha a família para o jantar. Comem todos e falam amenidades. Ele, inclusive. Diz de seu dia, de seu azar na máquina de café. Ouve a mulher falar das clientes estranhas que aparecem. Os filhos também narram seus acontecimentos. Serão adultos disfarçados que nem ele? Ou conseguirão ter outra visão, ou não terão visão nenhuma daquilo que virão a ser. Torce, com sinceridade, para que os filhos sejam simulacros. O simulacro que ele nunca foi, quer dizer, ele é um simulacro que se sabe, se conhece, se percebe como tal. E essa é a sua tragédia, é disso que é constituído enquanto homem sério e pai de família. Já pensou em largar tudo, em sair, desistir, sumir, verbo qualquer que lhe desse alguma voz diferente. No entanto, muito tempo já se passou. É noite lá fora. Aqui, as coisas e as pessoas estão iluminadas e sorrindo. Já não há mais espaço ou tempo para riscos. Já não há quase nada a se dizer

Rubens da Cunha

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2 respostas para “Quase nada a dizer

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