Crônica da Semana, por Marco Vasques

O NOVO COM CARA DE VELHO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [28/07/2014]

A máquina do mundo está sempre em trituramento. Não mercantilizamos apenas as coisas, mas também as relações e os corpos. Trocamos de carro, celular, roupa, sapato, amigos, amores e familiares de acordo com nossas sensações e interesses. A chamada modernidade líquida, de algum modo, é uma realidade presente. Entramos numa guerra e já estamos de olho em outra luta. Afinal, é preciso dar algum sentido para o não sentido da vida. Sim, a vida não tem sentido mesmo. Melhor, a vida não tem mesmo é lógica. Não, não se trata de pessimismo.

No Oriente Médio acontece uma guerra tramada em gabinetes. E a mídia, de um modo geral, vende a ideia mentirosa de que aquela região sempre esteve em conflito. Quem estudou ou leu o mínimo sobre o assunto sabe que nem sempre aquele povo se odiou assim. Bem pelo contrário. Já conviveram, em um passado não muito distante, de forma pacífica. Na África, a fome e a miséria, presentes também em todo o mundo, mostram a sua cara mais cruel. Estima-se que cerca de quinhentas crianças ficam cegas por dia no mundo ao imaginar um prato de comida. Crueldade maior é saber que fabricamos alimento o suficiente para alimentar três vezes a população existente no planeta.

Inventamos o poder e suas esferas de prisão. Inventamos a competição nociva que apequena nossas almas cotidianamente. Insultamos nossas mulheres com estupros e pancadas em todo o canto do mundo. Açoitamos nossos mendigos e homens abandonados com uma indiferença absoluta. Deixamos nossos iguais morrerem em corredores fétidos de hospitais. Criamos um sistema imobiliário impossível para a maioria das pessoas. Por isso acumulamos tragédias nos morros e em comunidades ribeirinhas, que é para onde a gente que a gente empobreceu pode ir. A concentração de riqueza é a irmã gêmea do poder. Nasceram juntas e não há perspectivas de falecimento ou de falência múltipla dos órgãos. Elas resistem a tudo e a todos. Chegamos à lua, temos altíssima tecnologia e investimentos inimagináveis em pesquisa de tudo o que é ordem. Temos milhares de igrejas pelo mundo, todas fechadas o dia todo, e não temos abrigo para os párias que gerimos.

Sim, a máquina do mundo está em constante trituramento, e nós estamos sempre criando redes de proteção e mecanismos de defesa, mesmo sabendo que estamos nus diante da morte inevitável e das tragédias vindouras. Sim, a máquina do mundo é uma moenda constante de crueldades, todas feitas e anuídas por nós, que não sentimos mais nada porque já não há mais lógica e muito menos sentido. Inventamos também o medo, que é o arauto dos covardes e a paralisia da força humana. Aqui, nada é tão novo que já não esteja velho!

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