Dias azuis e a música – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 30/07/2014

Dias frios e azuis que é o que resta a um poeta que não pode ser músico. O “não poder” aqui é mais um determinismo natural mesmo. Não lhe coube qualquer aptidão musical, rítmica, auditiva. Dessa forma, atribuiu à natureza sua incapacidade musical e se conformou em ser apenas um ouvinte, um escutador de música. Desconhece notas, tons e sobretons, apenas sabe que a música é uma arte que não permite a má execução. Perdoa-se um mal ator, um mal poeta, um pintor medíocre, perdoa-se um cineasta ruim, mas nada é mais desagregador do que música mal tocada, do que uma canção mal cantada. Mesmo aqueles que não entendem nada de música, que desconhecem completamente a técnica, sabem na hora que o instrumento não está bem executado ou que a voz está desafinada. Estaria a música tão entranhada corpo humano que é impossível deixar de notar quando essa força sonora desacontece. De qualquer forma, essas são apenas elucubrações de alguém que ouviu muita música durante a vida e que agora anda menos atento, mais afeito a alguns silêncios que nem mesmo a música pode oferecer. No entanto, não é algo permanente ou total, mas apenas um tempo, um tempo não musical, um tempo para que se refaçam certas melodias, harmonias, ritmos que andavam meio perdidos, melhor, andavam mal executados. Aos poucos, a sua orquestra interna vai se afinando, os instrumentos conseguirão formar aquele som único e vário, conseguirão dialogar de maneira a fazer com a que música flua sem esforço, sem o desacerto costumeiro dos iniciantes. Assim, tão logo os dias frios passem, ficarão apenas os azuis, e a música será outra, mais ampla, mais aberta nos sóis e sustenidos, seja lá o que isso possa representar. Afinal, seu ouvido não distingue notas, apenas sabe que algumas composições são melhores do que outras, que algumas canções cabem tão bem, que é como se fosse uma roupa interna, dessas feitas por alfaiates bem especializados. A música, dele e para ele, pode estar um pouco mais recolhida nesses dias azuis e frios, mas logo a música retornará não apenas azul, mas também quente, dançante, vasta como convém àquele que ainda gesta alguns sonhos sonoros.

Rubens da Cunha

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4 respostas para “Dias azuis e a música – Crônica de Rubens da Cunha

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